Após um período de ponderação, mas também de hesitação (confesso), aqui estou a responder ao apelo/desafio público, sob a forma de Carta Aberta, que o Luís Costa lançou aos movimentos de professores, nas pessoas do Ilídio Trindade, do Ricardo Silva e de mim próprio.
Hoje, toma a liberdade de lhe responder o professor e cidadão Octávio Gonçalves e, se for caso disso, amanhã, poderão vir a responder-lhe as estruturas coordenadoras do PROmova, após a reunião das mesmas, em Vila Real.
Presumo ser o primeiro a responder publicamente ao Luís Costa, mesmo não acreditando que o seu apelo tenha, nos outros protagonistas interpelados, incluindo o Ramiro Marques, caído em saco roto.
Todavia, não iludo que uma resposta autêntica e clarificadora possa ser lida como escassamente catalisadora de um qualquer levantamento imediato dos professores, a nível nacional e em força.
No momento presente, coabitam nas mentes da maioria dos professores três ideias que enformam uma predisposição psicológica complexa que não se compatibiliza com as dinâmicas motivacionais que, em 2008 e 2009, os levaram em massa a tomar posições nas escolas e a manifestarem-se nas ruas, convictos que era possível travar as deploráveis políticas educativas do socratismo. Porém e como se veio a constatar, alguém se encarregou de arruinar estas expectativas, em nome não se sabe bem de que desígnios.
Tendo em conta, quer as vicissitudes e a orientação tomada pela contestação dos professores, quer a alteração e a evolução dos cenários políticos, estas ideias são: rejeição (do modelo de avaliação em vigor, da diferenciação resultante de um ciclo de avaliação fantoche, de uma gestão não democrática das escolas, de uma legislação e uma orientação política facilitistas, de encerramentos irracionais e megagrupamentos por medida económica e política) + decepção/frustração (com a forma como os sindicatos desbarataram o capital de contestação e abdicaram das principais reivindicações - o que aconteceu por duas vezes e é uma mensagem muito forte de que, com estes sindicatos, talvez não valha a pena continuar a lutar, porque não há duas sem três) + expectativa de mudança política (adivinha-se como iminente o fim deste miserável ciclo político - o que também não deixa de ter um efeito desmobilizador).
Não vou perder muito tempo com as razões que suportam as reticências e as inércias do estado de espírito actual dos professores, uma vez que as mesmas já foram suficientemente abordadas, pelo que apenas me limitarei à sua enunciação telegramática:
- a circunstância das negociações serem um exclusivo dos sindicatos, os quais já demonstraram, à saciedade, não estarem sintonizados com as reivindicações centrais dos professores ou não disporem da coerência e da convicção suficientes para as imporem ao Governo;
- as cedências intermédias do ministério da Educação que acarretaram, para a maioria dos professores, a inexistência de qualquer avaliação (além da entrega de um papelucho de auto-avaliação) no decurso de toda a governação de Sócrates, o que nunca havido ocorrido anteriormente. Mau grado, no próximo ano lectivo, a barafunda e a fantochada estarem de regresso;
- o equivocado convencimento, por parte dos partidos da oposição e da comunicação social, de que as grandes questões teriam ficado solucionadas em sede do Acordo de Princípios, a que acresceu uma maior barragem informativa à divulgação das posições dos movimentos de professores (também por pressão dos sindicatos);
- a percepção, por parte dos professores, do enfraquecimento político do PS de Sócrates e do progressivo e imparável descrédito da governação socrática, o que é gerador da expectativa que a hostilização aos professores e as medidas de faz-de-conta e facilitistas terão os dias contados.
Face a estes cenários e constrangimentos, agravados pela natural debilidade logística dos movimentos de professores (constituídos por professores que não dispõem do tempo e dos meios que lhes permitam ir às escolas mobilizar os colegas - porque se dispusessem destas prerrogativas não tenho dúvidas sobre uma adesão massiva dos professores às agendas dos movimentos) e, sejamos realistas, por alguma dispersão/confrontação de egos (mea culpa, também) e por algum menor entusiasmo e coerência, por parte de alguns, na defesa do essencial, manifesto algum cepticismo sobre a possibilidade de grandes mobilizações de professores, nesta fase.
Assim sendo, antevejo que seja viável começar a pensar-se no futuro imediato (2011), com base nas seguintes intervenções, algumas das quais tenho vindo a defender:
- lançar as bases de uma Convergência de Professores que reúna movimentos, bloggers/blogues, associações e professores agrupados por escolas e em nome individual, como algo germinal para uma nova representatividade dos professores, suportada numa rede online que permita aos professores tomar decisões directamente e no momento;
- definir uma agenda mobilizadora da adesão dos professores à mesma e que possa ser exequível no contexto da alternativa política que as sondagens pré-anunciam, nomeadamente, acabar com esta filosofia de avaliação do desempenho, acabar com o sistema de quotas, permitir que as Assembleias Gerais de Professores confirmem ou vetem o Director proposto, exigir a eleição dos coordenadores de departamento, pôr fim à metodologia da imposição de asneiras consumadas recorrendo-se à implementação de métodos participativos, de forma a que os professores sejam chamados a pronunciarem-se sobre a definição de políticas educativas (reorganizações curriculares, encerramentos de escolas, megagrupamentos...), bem como imprimir nas escolas uma orientação de exigência (exames e professores focados no ensino) e de disciplina que contrarie o facilitismo actual, etc.;
- negociar acordos pré-eleitorais com os partidos que assumam a agenda dos professores.
Para uma actuação desta natureza estou disponível (e estou certo que o PROmova também) e vamos a isso, mas já não tenho pachorra para folclores, manifestações ou greves simbólicas que acabam em memorandos ou em acordos pífios.
2 comentários:
Muito obrigado, Octávio, por me teres honrado com uma resposta pública!
Subscrevo a tua posição, Octávio.
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