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In Público, 31/01/2010
Obrigado, La Salette
Muito sucintamente, quer parecer-me, que por mais planos que inventem ou redefinam, nada de muito substantivo se alterará no terreno, antes que se repensem políticas gerais, se passem sinais de uma nova mentalidade e se invista seriamente em estratégias simples, mas consistentes e credíveis.
Sem pretender sobrepor-me aos especialistas da área ou ter a veleidade de querer redescobrir a pólvora, até porque me parece que estas ideias traduzem as percepções comuns e quotidianas dos professores nas escolas, considero fundamental que se pudesse começar pelo seguinte:
- contrariar as mensagens de facilitismo (quase omnipresentes nas escolas e na sociedade, a começar nos cursos gerais, mas sobretudo com expressão escandalosa em muitos cursos profissionais e nas novas oportunidades, gerando percepções ilusórias de competência que quase só preenchem necessidades psicológicas de auto-estima) e as efectivas progressões abaixo dos requisitos mínimos de competências e de conhecimentos, pois tal desincentiva o empenho requeridos à concentração e ao estudo;
- valorizar os resultados escolares mais como indicadores para análise e actuação ao nível dos departamentos respectivos de cada escola, ao invés de funcionarem como pretextos de propaganda política, o que tende a torná-los dependentes de mecanismos de pressão exercidos, mesmo que não explicitamente, sobre as escolas e os professores, que podem advir de muitos quadrantes e sob muitas formas, para um sucesso estatístico artificial;
- limitar os conceitos de escola a tempo inteiro, "armazém" ou folclórica, reorientando a escola para o espaço privilegiado do ensino e da aprendizagem, que exige disciplina, concentração e tempo dedicado ao estudo (recordo, a este propósito, o contributo nefasto que as aulas de substituição, atabalhoadamente impostas com recurso indiscriminado a quase tudo e a quase todos, acarretaram em termos de degradação do conceito de aula), mesmo que isto implique a disponibilização de outros espaços e outros profissionais para responder às necessidades de ocupação dos tempos livres dos jovens. É triste que o Estado não aposte no envolvimento dos jovens em actividades físicas e desportivas, num tempo em que preocupam os malefícios do sedentarismo e em que se conhecem os efeitos positivos da actividade física sobre a estimulação intelectual;
- ter uma classe docente motivada e emocionalmente disponível para trabalhar com alegria e com gosto, sem constrangimentos burocráticos inúteis, o que não se consegue com um sistema de avaliação que coloca todos a competirem com todos, a vigiarem-se mutuamente e uns a dependerem de competência não reconhecidas e de humores de outros, em permanência e de uma forma nada sadia;
- não enveredar pela sobrecarga de trabalho para o quadro de professores disponível em cada escola, mas, apostar numa formação pedagógica e científica (português, matemática, física e química, ciências naturais e biologia, línguas estrangeiras, filosofia...) consistentes de professores no desemprego, que garantissem um apoio organizado e continuado ao estudo dos alunos que evidenciassem maiores dificuldades de aprendizagem, tendo sempre como referência os conteúdos leccionados nas principais disciplinas;
- dotar as escolas dos espaços destinados ao estudo, efectivamente acompanhado, das diferentes matérias, e inscrito obrigatoriamente nos horários escolares dos alunos.
Este apoio é passível de funcionar bem, desde que articulado a nível do conselho de turma, de uma forma simplificada e sem recurso a papeladas e a reuniões sobre reuniões, porque os professores e as escolas quando dispõem do tempo e das condições para trabalharem, fazem-no com empenho, com brio e, consequentemente, com eficácia.
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