Apesar da densidade e da relevância de toda a entrevista, permito-me destacar as ideias base que alguns de nós temos vindo a defender e que se encontram aqui reforçadas por uma voz autorizada:
- a defesa da autoridade do professor dentro da sala de aula, sem as meias tintas das pedagogias igualitaristas;
- a implícita imputação à escola, pela negligenciação na transmissão do conhecimento e no desenvolvimento da cidadania democrática, da responsabilidade pela existência de uma sociedade ignorante que tolera e legitima a mediocridade política (um excelente enquadramento para a compreensão do fenómeno "Sócrates");
- o sublinhado de que a missão fundamental da escola é formar para a cidadania democrática e, acima de tudo, ensinar, uma vez que "[As aulas] São um lugar onde se transmite conhecimento". Aliás, só o conhecimento, não o faz-de-conta, liberta o homem da ignorância e robustece a sua participação democrática.
Nos antípodas da escola da transmissão do conhecimento, que se projecta na entrevista de Savater, está a escola teatral e da treta que pode ser vislumbrada na concepção peregrina (e discriminatória) do secretário de Estado da Educação, A. Ventura, quando separa a componente pedagógica da componente científica, no âmbito da avaliação do desempenho de coordenadores e relatores (marteladas ad hoc para disfarçar o empenado e o disfuncionamento do modelo), valorizando a primeira e tornando irrelevante a segunda. Para a escola de A. Ventura torna-se indiferente o que o professor ensina (a adequação do conhecimento que transmite), desde que o faça com estilo, espalhafato ou teatralidade.
Se o povo não vagueasse ignorante, se a intelectualidade nacional não andasse comatosa e alienada com o endividamento socrático e se os professores, nas escolas, não tivessem aderido ao jogo oportunista e discricionário de ganhar vantagens, há muito que esta escola da treta estaria lacrada em desprezíveis anais da história.
P.S.: conhecedor de blogues de professores e invadido por emails que se vêm dedicando à divulgação da instrumentária burocrática que veste esta absurda avaliação do desempenho, como quem espalha mel sob papel amarelo para atrair moscas sedentas de ultrapassar colegas pela faixa da palhaçada, não posso deixar de lamentar que alguns professores ex-resistentes estejam agora entre os mensageiros da farsa.
| In Atual, Expresso (30-10/2010) |













