Se muitos professores tinham dúvidas sobre o pensamento e as linhas programáticas do PSD para a educação, hoje, no contexto do debate quinzenal, na Assembleia da República, sobraram razões para adensar a apreensão e para legitimar um crescente desapontamento.
A circunstância de o líder da bancada do PSD ter confundido os resultados circunstanciais do PISA 2009 (nada garante que estejamos perante uma melhoria progressiva e consistente, pois vemos ocorrerem oscilações em muitos outros países da OCDE) com a existência de uma orientação correcta, no país, em matéria de educação, precipitando-se a sancionar as políticas educativas de Sócrates, tem subjacente um nível de impreparação, de ingenuidade e de desorientação absolutamente decepcionantes.
Impreparação porque seria expectável que o PSD, enquanto principal partido da oposição e putativa alternativa de governo, dispusesse de um gabinete especializado de acompanhamento das questões educativas, tanto no plano do conhecimento da natureza e implicações das medidas implementadas, como no domínio dos problemas, constrangimentos, arbitrariedades, inconsistências e climas que têm emergido nas escolas.
Por exemplo, ter uma personalidade como Santana Castilho a coordenar este gabinete, proporcionaria ao PSD ideias consistentes e uma capacidade argumentativa imbatíveis em matéria de educação, funcionando, simultaneamente, como uma âncora para as expectativas de mudança que muitos professores alimentam, com a relevância de influência política que caracteriza este grupo profissional.
Ingenuidade porque a afirmação do líder da bancada do PSD, assim divulgada pela comunicação social, dá a Sócrates o trunfo mais desejado, se tivermos em conta que foi o dossier educação, e muito justamente, que mais contribuiu para arruinar a credibilidade política de Sócrates e lhe retirar a maioria absoluta.
Ainda por cima, quando o PSD tinha a obrigação de diferenciar, como o fez em parte o PCP, os resultados do estudo PISA 2009 das reformas educativas de Sócrates, como já demonstrei
aqui e
aqui, por impossibilidade temporal e fáctica de se poderem estabelecer relações de causalidade ou correlação entre estas duas realidades, o que, no essencial, até pode ser pouco abonatório e, inclusive, legitimar desconfianças relativamente a essas mesmas reformas.
O elogio foi injustificado e extemporâneo.
Desorientação porque reina, no PSD, uma inacreditável indefinição sobre o pensamento oficial do partido em matéria de avaliação dos professores, autoridade dos professores e disciplina nas escolas, organização curricular, autonomia pedagógica, colocação de professores, exigência nas aprendizagens, modelo de gestão, reorganização do parque escolar, etc.
As intervenções e as mensagens têm sido desconcertantes e geradoras de perplexidade, porque absolutamente desencontradas e incapazes de se articularem num discurso coerente, alinhado e promotor de confiança. Quem ouve Miguel Macedo, Pedro Duarte, Paulo Rangel, Aguiar Branco e outros (fora aqueles que simplesmente não se ouvem, como Passos Coelho), não pode deixar de ficar perplexo com a falta de sintonia entre eles.
Se o PSD quiser, efectivamente, ser alternativa ao PS, necessita, entre outras orientações claras, de se definir em relação à educação e, sobretudo, evitar dar tiros tresloucados nos pés, como aconteceu com o líder parlamentar.