Agradeço ao José António o envio do email e do testemunho de um professor, militante socialista, empurrado para a reforma antecipada, com uma penalização de 30%, mercê do esgotamento da disposição para continuar a leccionar, num quadro de políticas educativas "absolutamente insuportáveis".
A sangria de saber, e de experiência pedagógica acumulada, a que as escolas públicas foram sujeitas, em consequência da partida forçada e prematura de cerca de 18 mil professores, constitui mais uma expressão das condutas políticas desvairadas, para não lhe chamar criminosas, que enformaram a governação socrática.
Na entrevista, além do testemunho da oposição, política e ideologicamente imparcial, às medidas educativas do socratismo, é muito interessante escutar a descrição de uma viagem de 30 dias pela China.
(…) minuto 3:58
Jornalista (João Paulo Meneses) – Eu disse no início que o Josias, e também já falamos disso, foi Professor de Filosofia, Filosofia e ?
Josias – Filosofia.
Jornalista – Filosofia no ensino secundário, é isso?
Josias – Sim, sim, no ensino secundário.
Jornalista – Durante quantos anos?
Josias – Trinta e três.
Jornalista – Aposentou-se, reformou-se porque tinha chegado o seu tempo, porque pensou …
Josias – Não, reformei-me porque a política educativa produziu algumas transformações nas escolas que se tornaram absolutamente insuportáveis.
Jornalista – Está a falar da avaliação?
Josias – Não, não, não estou a falar da avaliação, nem, nem … a avaliação é a ponta do iceberg. Não, estou a falar fundamentalmente em toda a – eu gostava de utilizar palavras suaves – em toda a burocracia e em todos os procedimentos absolutamente improdutivos, e com efeitos muito perversos em termos do objectivo central da acção educativa, que tem crescido em flecha nos últimos anos, e portanto chegou a um ponto em que eu ao fim de trinta e três de carreira pensei que estava a desperdiçar a minha vida … e como nós não vivemos para ganhar dinheiro nem para trabalhar, mas pelo contrário trabalhamos e ganhamos dinheiro para viver, eu achei que o deve e o haver era muito desequilibrado e abdiquei de 30% do meu vencimento bruto até ao fim da minha vida e vim-me embora.
Jornalista – É uma decisão que hoje …
Josias – Voltei à ponta … à casa de partida da minha vida. Estou a fazer uma vida diferente.
Jornalista – Já agora, quase um ano depois de se ter reformado, mais ou menos um ano depois, que balanço é que faz? Foi uma boa decisão?
Josias – Foi muito boa, muito boa, muito boa. Tenho uma qualidade de vida muito superior vivendo com menos. Isto até é bom para enfrentar a crise.
Jornalista – Sim
Josias - … porque às vezes para termos uma qualidade de vida superior é preciso aprender a viver com menos. Também aprendi isso na China.
Jornalista – Sim, eles são mestres a gerir essa questão.
Josias – Exactamente.
Jornalista – Porventura os nossos ouvintes, alguns dos nossos ouvintes, estariam a ouvir agora esta resposta do Josias Gil a dizer, relativamente ao sistema de ensino, e podiam estar a pensar: Está aqui um perigoso agitador da oposição, de um dos partidos da oposição, a verdade é que o Josias Gil, não sei se ainda se mantém, mas sempre esteve ligado ao Partido Socialista, foi inclusivamente candidato do Partido Socialista à câmara de S. João da Madeira, certo?
Josias – Duas vezes seguidas …
Jornalista – … o que significa …
Josias – … a Presidente da Câmara …
Jornalista – Sempre esteve ligado ao partido … ?
Josias – … e sou militante do Partido Socialista desde 1980.
Jornalista – O que significa que esta, esta … este descontentamento relativamente às políticas da educação não é tanto uma questão ideológica no sentido político, não é …
Josias – Não, não, não!
Jornalista - … de ser do Bloco de Esquerda, ou do PSD, ou ser do CDS ou do PSD, é mesmo uma questão de conceito em relação aquilo que foi proposto (palavra imperceptível).
Josias – É uma questão de substancialidade da própria experiência e da própria realidade digamos, porque nós só nos deixamos iludir pelos slogans e pela superficialidade das coisas quando desconhecemos a substância e eu como vivi trinta e três anos a trabalhar dentro das escolas, e corri o país todo, literalmente do Minho ao Algarve.
Jornalista – foi professor em vários pontos do país, é isso?
Josias – Do Minho ao Algarve, literalmente. Eu pude sentir na minha pele e ir apreciando e partilhando as transformações que o nosso ensino teve ao longo desses trinta e três anos e portanto cheguei à conclusão, tristemente, que os seis anos que me faltavam para completar a reforma não …
Jornalista – Não compensavam …
Josias – … não mereciam ser, não me mereciam a minha dedicação e retirei-me.
(…) minuto 8:06
Nota: sublinhados a cor da minha autoria.
Abraço,
J.A.R.