O título do
post condensa a minha leitura idiossincrática do dia de ontem, correspondendo a duas realidades de desejo, mesmo que em planos de natureza, relevância e intensidade diversos, que, casuisticamente, confluíram, a saber: uma espera anual pelo primeiro reencontro com as cerejas, uma das minhas frutas preferidas, desde a meninice; uma espera de seis anos para ver Sócrates derrotado e, definitivamente, afastado da governação do país, considerando que o debate de ontem marcou o princípio do fim político de Sócrates.
Depois de uma manhã de aulas, dediquei o período da tarde à revisitação das minhas raízes campestres e à apanha de cerejas, que as fotos documentam. Lamento que as limitações da tecnologia e os constrangimentos da matéria e da ciência físico-química não permitam a partilha virtual destas delícias naturais e da luxúria dos seus sabores.
Ao início da noite, consumou-se um episódio decisivo para o futuro do país, com Sócrates a ser impiedosamente esmagado por um Pedro Passos Coelho seguro, preparado e incisivo, que apenas surpreendeu quem não conhece o seu perfil de seriedade ou não acompanhou a exigência que colocou na selecção dos melhores para a substantivação dos diagnósticos da situação política actual e do seu programa de governo.
É caso para dizer que se eu passei a tarde a apanhar cerejas, Sócrates passou a noite a "apanhar papéis".
Sem qualquer outro testamento relevante para legar, que não um Estado pré-falido e a única economia europeia em recessão, Sócrates cometeu, no debate de ontem, três erros básicos:
- quiçá, interiormente, desencantado com os resultados da sua própria governação (foram notórias expressões faciais de resignação e de amargura com a sua conduta governativa contra-atitudinal), procurou imprimir uma orientação ao debate que se revelaria fatal, ao incarnar o papel de uma espécie de líder da oposição à oposição, assumindo-se como escarafunchador de declarações ou posições passadas de Passos Coelho, ainda por cima com uma insistência despropositada (como se aquele que mais perde no terreno do escrutínio entre o que se afirmou e o que se veio a fazer ou a defender depois, não fosse o próprio Sócrates), ao mesmo tempo que, assim, impossibilitava a avaliação, quer dos seus erros nucleares de governação, na forma como, por razões eleitoralistas, chegou atrasado ao reconhecimento da crise, se precipitou a sair dela a destempo e foi incapaz de perceber o momento certo para recorrer à ajuda externa, quer das suas (inexistentes) propostas concretas para o futuro. Com esta estratégia, Sócrates contribuiu para a legitimação do protagonismo e da centralidade de Passos Coelho e do seu programa político;
- inusitadamente, Sócrates não ensaiou nenhum balanço, nem real, nem fantasiado, da sua acção governativa. Descrente ou receoso do contra-ataque de Passos Coelho, ninguém ouviu a Sócrates o
play da cassete do inglês no 1º ciclo, das Novas Oportunidades, da reabilitação das escolas ou das ventoinhas. Conhecedor da robustez das análises de Santana Castilho e da circunstância de o mesmo ter assessorado Passos Coelho e o PSD em matéria de Educação, Sócrates amedrontou-se com a possibilidade de poder estar a desencadear um confronto com as opacidades, os embustes e as mediocridades que se escondem por detrás das fachadas da propaganda (porque o anúncio comicieiro de realizações, sem contraditório, é outra loiça). Apesar da bondade de algumas ideias de partida da sua governação, tudo Sócrates desbaratou em obediência a uma lógica de imposição crispada, de imediatismo, de propaganda e, sobretudo, de injustificada vaidade e promoção pessoal;
- se é verdade que Sócrates se furtou à avaliação da sua responsabilidade na governação, também é consensual que não teve a coragem suficiente para, num contexto de extremas dificuldades, avançar com nenhuma medida concreta para futuro, confirmando que não tem estatura de estadista, pois não é da sua natureza apresentar medidas difíceis, preferindo sempre ir a reboque das circunstâncias, como táctica de salvaguarda da sua responsabilidade política.
Ao contrário da motivação que me leva, ano após ano, à apanha das cerejas, Sócrates mostrou-se, ontem, um líder esvaziado e perdido, sem âncoras a sustentá-lo no passado e incapaz de carrear qualquer esperança confiável para o futuro, limitando-se a ver incoerências apenas nos outros e a repetir fantasias contrafactuais a propósito dos fundamentos da actual crise política, já desmentidas pelos membros da
Troika, pelo Banco de Portugal, por Mário Soares ou pelos seus ex-ministros de Estado, Freitas do Amaral e Campos e Cunha, entre outros.
Sócrates acaba prisioneiro de uma retórica vazia, gasta, desacreditada e desmobilizadora.