Um murro de Santana Castilho na consciência de Passos Coelho e da elite política "laranja" (18-01-2012): As "natas"

Quinta-feira, 30 de Junho de 2011

Mobilizem-se e exijam o fim imediato deste modelo de avaliação

Fonte: TVI24
Saúdo esta posição da FNE, mas penso que este é o momento para os sindicatos e os professores passarem das palavras de desencanto e de indignação aos actos, promovendo de imediato, nas escolas (aproveitando as reuniões de departamento e a presença dos professores em funções de vigilância de exames), rápidas tomadas de posição, dirigidas ao Primeiro-ministro e ao ministro da Educação, a exigir o fim imediato de todos os processos de avaliação que decorrem nas escolas, mercê da falta de rigor e seriedade dos mesmos.
Embora já não esteja no activo da luta dos professores, sugeriria um texto curto e comum para essas tomadas de posição que, além da referência à natureza farsante do modelo, incorporasse uma menção às iniciativas do PSD e às declarações eleitoralistas recentes de Pedro Passos Coelho.
Nunca como neste momento estas tomadas de posição fizeram tanto sentido e dispuseram de condições de surtirem efeito.
É a hora de os sindicatos e as escolas se mobilizarem já a partir de amanhã. De que estão à espera para agirem? 

Este primeiro-ministro não tem palavra

Lamento ter que o reconhecer, mas acabo de constatar, há uma hora atrás, que este primeiro-ministro, e ao contrário do que era a minha convicção pessoal, não é politicamente sério.
Questionado, no Parlamento, sobre a avaliação dos professores, o primeiro-ministro afirmou, peremptoriamente, que não haverá lugar à suspensão do modelo de avaliação, embrulhando em mentira e desculpas esfarrapadas aquilo que é um incumprimento eleitoral e uma insanável cambalhota relativamente a tudo o que fez e afirmou até ganhar as eleições legislativas.
Mas, o que menos abona em favor da seriedade política de Pedro Passos Coelho são os argumentos invocados para suportar a não suspensão do modelo de avaliação:
1. no final de Março de 2011, o anterior Governo ainda dispunha de meio ano para conceber um novo modelo de avaliação;
2. neste momento, o novo Governo já não dispõe de tempo útil para conceber esse novo modelo de avaliação.
Ora, acontece que quando o PSD votou, no Parlamento, a suspensão do modelo de avaliação em vigor, o Governo já estava demissionário e apenas permaneceu em funções de gestão, durante mais dois meses, e, como tal, sem condições funcionais e de legitimidade política para conceber um novo modelo de avaliação. Logo, não faz sentido o que Passos Coelho afirma em 1., apenas para esconder a forma como iludiu eleitoralmente os professores.
Relativamente ao afirmado em 2., o actual primeiro-ministro ainda se desacredita mais, pois, não foi ele próprio que garantiu à jornalista Clara de Sousa, numa entrevista na SIC, que, em Março de 2011, o PSD não se limitou a votar a suspensão do modelo de avaliação, mas tinha uma alternativa e que até fez gala de exibir o documento? Então, em que é que ficamos?
Mas, o que Pedro Passos Coelho finge, agora, não perceber, é que o imperativo de suspender imediatamente o modelo de avaliação em vigor, não é uma questão de oportunidade temporal, mas um pressuposto de seriedade pessoal, de quem não pode permitir-se legitimar e validar processos "monstruosos e kafkianos" que são uma farsa.
Nesta estreia parlamentar, Passos Coelho nem sequer teve coragem para reafirmar o fim da avaliação pelos pares que está inscrito no programa eleitoral do PSD, escudando-se, apenas, no fim, mas que não é para já, da avaliação por pares de outros grupos disciplinares.
A avaliação dos professores é tão-só, para quem enche a boca com a necessidade de gerar confiança, a primeira prova de que este primeiro-ministro traiu, de forma grosseira e oportunista, a confiança que muitos professores nele depositaram.
Estou disponível para provar o que aqui afirmo em qualquer local ou instância.

QUEM TRAMOU Pedro Passos COELHO?


Esta foi uma excelente intervenção de Pedro Passos Coelho, quando ainda reproduzia as concepções e as ideias programáticas do Professor Santana Castilho.
Registo, entre outras referências acertadas, a afirmação peremptória "temos que acabar com este processo monstruoso de avaliação", a distinção entre avaliação e classificação e a avaliação externa a cargo da Inspecção-Geral da Educação (que Nuno Crato não parece corroborar e o modelo do ensino privado não acolhe).
Se Pedro Passos Coelho estava a ser sincero e acreditava nas ideias que defendeu nesta e em outras entrevistas, então, quem lhe impôs outras concepções de última hora, que se afastaram absolutamente do que aqui postulava?
E Pedro Passos Coelho é homem para defender, sem se rir, que "acabar" é sinónimo de "reformar" e manter?
Uma lamentável e decepcionante falta de liderança política!

Manual para um futuro Político Vencedor, quiçá, Primeiro-ministro

Para aqueles que ainda acreditam na política e na utilidade do voto face ao que é apregoado nas pré-campanha e campanha eleitorais, atrevo-me a deixar aqui algumas dicas que serão muito importantes para os puros e genuínos futuros políticos irem pensando nelas e treinando durante os próximos tempos.

Dica 1: Faça circular a ideia de que andou estes anos todos a preparar-se para o grande desafio que vai ser salvar a sua ditosa Pátria.

Dica 2: Vá treinando a sua voz de tenor, barítono, soprano ou de cantor pimba, de acordo com o seu gosto pessoal, a fim de que, em momentos de campanha, possa acompanhar os cânticos de tunas académicas e outros apoiantes com tal capacidade vocal que vai mesmo parecer que quem está a desafinar são eles.

Dica 3: Assuma, perante as televisões e os jornais, que um qualquer problema de uma qualquer classe profissional achincalhada pelo seu futuro antecessor é um verdadeiro processo monstruoso e kafkiano.

Dica 4: Solicite, a quem entenda do assunto monstruoso e kafkiano, uma proposta de lei que acabe de vez com toda essa fantochada.

Dica 5: Guarde a proposta de lei da Dica 4 para ser apresentada no parlamento na última semana do mandato dos deputados.

Dica 6: Promova um consenso alargado de apoio à proposta referenciada.

Dica 7: Não se esqueça de rectificar, como se parecesse um acerto conjuntural, a dita proposta de molde a que, depois de aprovada, seja considerada, no mínimo, inconstitucional, ilegal, enfim, o que lhe der mais jeito.

Dica 8: Encomende um programa de uma área de governação a quem perceba do assunto e que seja uma garantia de ser uma Pessoa muito estimada e considerada no seio dessa área de governação.

Dica 9: Promova, discretamente, talvez com algum prefácio numa obra do autor, que está de acordo com as ideias da personalidade da Dica 8.

Dica 10: Desconheça, ou finja desconhecer, ou deixe que uma qualquer comissão do seu partido mande às malvas as ideias lúcidas e correctas da personalidade com as quais se identificou na sua essência.

Dica 11: Afirme, publicamente, que irá melhorar o que aquela comissãozita alterou do que havia encomendado sem sequer se ter apercebido.

Dica 12: Para não ser apelidado de mentiroso, como o seu futuro antecessor, não emita, ou omita, qualquer opinião, se a tiver, sobre temas kafkianos.

Dica 13: Cultive a imagem de que assume sempre os seus compromissos, e a palavra dada, desde que os mesmos, e a mesma, se prendam com questões de um nobre parlamento e não com outros aspectos comezinhos de um qualquer processo monstruoso e kafkiano.

Dica 14: Depois de eleito, siga à risca, e na íntegra, a Dica 15!

Dica 15: Esqueça todas as dicas anteriores! Já conseguiu os votos que lhe permitem estar onde queria! E o resto é conversa!

José Aníbal Félix de Carvalho

Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

O DESVARIO DO FUTURO - Educação, parte I

Convicto, desde o momento em que foi divulgado o nome do ministro da Educação, que os ziguezagues, as promessas vagas, os silêncios e a captura pelo pior do aparelho partidário, amarrariam Pedro Passos Coelho a um decepcionante e embusteiro incumprimento do compromisso público de melhorar o programa eleitoral do PSD para a Educação, como, agora, é constatável no programa do Governo, que não só não incorpora nenhuma melhoria, como piorou a expectativa e a formulação de medidas e decisões, decidi-me a "reformar" o meu modelo de actuação estratégica, deixando de confiar em gente inconsistente e escassa em probidade e coragem política, pelo que me remeterei, doravante, à minha condição de cidadão interventivo, resistente, descomprometido e afectado por uma ainda mal diagnosticada mania de pensar, mas fora de espartilhos como luta de professores ou blogosfera docente.
Apesar desta postura, não posso deixar de empreender uma leitura crítica dos equívocos, dos erros e das omissões que enformam o programa deste Governo, na parte relativa à Educação, os quais ilustram uma trajectória de desorientação do líder do PSD, a partir do momento em que alguém (ou alguma estrutura interna do partido) decidiu, no período de quatro dias antes da apresentação oficial do programa eleitoral do PSD, espatifar linhas e medidas programáticas bem delineadas e geradoras da confiança e da mobilização dos agentes educativos, para lhe injectar o veneno da intendência centralista, da desconfiança básica em relação aos professores, do pacto com o faz de conta e do situacionismo.
Vamos lá, então, escalpelizar o malogrado programa, começando, neste primeiro post, pela derrogação de dois óbvios equívocos de base inerentes a princípios e objectivos, ainda antes de ir às medidas concretas, o que ocorrerá em próximos posts.
1º equívoco: "A necessidade de melhorar a qualidade do que se ensina e do que se aprende, com vista à concretização de metas definidas, assenta na definição de uma estratégia que permita a criação de consensos alargados em torno das grandes opções de política educativa. Para o conseguir, é fundamental estabelecer um clima de estabilidade e de confiança nas escolas." Programa do Governo, p. 109.
Como é possível apelar-se à "criação de consensos" e ao estabelecimento de "um clima de estabilidade e de confiança" se o Programa legitima um modelo de avaliação do desempenho que tem constituído, desde 2008, o principal factor de desestabilização das escolas e um enquistado entrave ao estabelecimento de consensos, além de a sua continuidade se fazer absolutamente ao arrepio de uma iniciativa parlamentar recente e das declarações eleitoralistas do líder do PSD?
Quem pactua com as práticas e com os resultados que decorrem de processos "monstruosos e kafkianos", tornando-se cúmplice do desenrolar de uma farsa destituída de seriedade e rigor, assume-se, a seu modo, também farsante da mesma palhaçada socrática, pelo que deixa de reunir condições de credibilidade pessoal e política para gerar consensos e confiança, não sendo merecedor de qualquer crédito da parte dos professores.
2º equívoco: "Apostar (...) no reforço da autoridade efectiva dos professores e do pessoal não docente;"  Programa do Governo, p. 110. 
O reforço da autoridade efectiva dos professores não é algo que resulte da um artifício retórico ou da proclamação pública de uma intencionalidade, antes pressupõe o reconhecimento da capacidade de actuação e de decisão dos professores nas escolas.
Que autoridade é a de um professor que vê reforçados os poderes de um director que não elege e que, em muitas escolas, se relaciona com ele na base de relações de mando e de autoritarismo, exigindo-lhe uma correlativa subserviência?
Não há reforço da autoridade e da dignificação dos professores, ao mesmo tempo que as medidas concretas vão no sentido, quer do cerceamento e do esvaziamento dos poderes dos professores, quer da admissão de um pressuposto, regra geral, infundado e indemonstrado de desconfiança em relação, tanto à maturidade, à sabedoria e ao sentido de responsabilidade dos professores para decidirem e assumirem a gestão das escolas, como às capacidades dos professores para leccionarem e às instituições superiores que os formam.
Como afirmou Santana Castilho, aquando da cerimónia de lançamento do seu último livro, "não é possível modificar o sistema sem acreditar nos professores".

Esta laranja não os tem

Acabado de chegar de uma extenuante deslocação a Coimbra, com mudanças pelo meio, estou sem disposição para empreender qualquer análise, por hoje, do frustrante, medroso e acanhado programa deste governo para a Educação.
O mais que consigo, neste momento, é transmitir o que me vai na mente através da simbologia da imagem: a esta laranja falta-lhe qualquer coisa para ser capaz, quer de assumir, com seriedade, as consequências das suas iniciativas e intervenções em período pré-eleitoral e eleitoral, quer de proceder às rupturas e às reformas que se impunham na Educação, preferindo continuar a navegar em águas fétidas.
Digam o que disserem ou pensem o que pensarem, existem questões, à consideração de jornalistas, que careciam de esclarecimento cabal e que são as seguintes:
- que espécie de equívoco, de ignorância ou de ligeireza levou Pedro Passos Coelho a encomendar o programa eleitoral do PSD ao Professor Santana Castilho e a solicitar-lhe a explicação detalhada, em livro, das medidas concretas para a Educação?
- se a aproximação de Pedro Passos Coelho a Santana Castilho (porque, por mais mistificadores de serviço que vegetem por aí, este foi o sentido da dinâmica) ocorreu na base de um pleno conhecimento das concepções deste último, então, que espécie de oportunismo moveu este primeiro-ministro e que motivação o levou a optar por um programa de última hora pífaro e por gente tão frouxa para o aplicar?
- em que medida este programa de governo traduz o compromisso público de Pedro Passos Coelho de que iria melhorar o programa eleitoral do PSD para a Educação? A melhoria corresponde exactamente a quê?
- por que razão transcendente fazia sentido suspender o modelo de avaliação do desempenho dos professores em Março de 2011 e deixou de o fazer em Junho de 2011? 

A palavra de um político


Honrar os compromissos é só para alguma Nobreza e acaba por se transformar num processo monstruoso e kafkiano.
Para memória futura: uma evidência da “cacinha” ao voto.

José Aníbal Félix de Carvalho

Terça-feira, 28 de Junho de 2011

O modelo de avaliação no Programa do Governo

Retirado do Programa do Governo, p. 112
O programa do Governo para a Educação, além de demasiado generalista nas suas medidas, confirma os enxertos e as tendências de última hora a merecerem maior vigilância e preocupação. Logo, com mais tempo, procederei a uma análise detalhada de algumas dessas medidas.
Todavia, a maior decepção prende-se com o aparente recuo relativamente ao compromisso do PSD com a revogação deste modelo de avaliação que, tendo em conta a forma como Passos Coelho o qualificou, a mesma devia ser imediata. Mas, não é isto que, certamente, irá acontecer, para frustração da maioria dos professores.
"Reformar" o modelo de avaliação do desempenho significa exactamente o quê? Apenas simplificá-lo, mas mantendo a sua filosofia de base, nomeadamente, a avaliação por pares? Como se evolui deste modelo para aquele que vigora no ensino particular e cooperativo? Cai a componente externa da avaliação do desempenho e fica apenas entregue ao Director? É isto?
Mais logo, desenvolverei mais pormenorizadamente estas ideias e o que elas acarretarão para futuro.

Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

Quanto vale a palavra de um primeiro-ministro?


Bem sei que estas declarações foram proferidas enquanto líder da oposição e naquele interstício de tempo que foi de Março a Abril de 2011, em que o PSD tinha um programa consistente e mobilizador para a Educação e, pela primeira vez em muitos anos, sabia o que dizia, com acerto e segurança, em matéria de avaliação de professores.
Mas, caramba, como compatibilizar estas declarações com a ausência de qualquer sinal dado às escolas sobre o fim iminente de um modelo "monstruoso e kafkiano" e, mais grave, com aquilo que parecem ser orientações emanadas, ou, no mínimo, não abortadas, do actual Ministério da Educação, no sentido de se prosseguir o processo de avaliação, mediante inscrições online e o "diabo a sete". 

Santos Silva. What else?

Já tinha manifestado sérias dúvidas sobre o acerto da escolha de Nuno Crato para ministro da Educação, dado o conhecimento vago e distanciado que tem das temáticas e das problemáticas específicas dos ensinos básico e secundário, além de não se lhe conhecer um pensamento estruturado e programático para a educação básica e secundária que vá muito além da desconstrução retórica do eduquês, da crença nos exames como panaceia do sistema e de umas invocações, pouco mais que panfletárias e caleidoscópicas, sobre exigência e avaliação, o que, sem uma limpeza e reorganização profundas do ensino, desde trajectórias escolares diferenciadas até à reorientação das funções e actividades dos professores para apostas sérias e sistemáticas na preparação dos alunos (especificamente, nos que manifestam dificuldades mais acentuadas), redundará num elitismo incomportável.
Como tal, tinha a expectativa, à semelhança do que ocorreu em outros ministérios, que as fragilidades do Ministro fossem compensadas pela densidade técnica, pela autoridade reconhecida no terreno e pelo peso político dos Secretários de Estado, mas tendo em conta, quer os perfis de Isabel Santos Silva e de João Casanova de Almeida, quer, acima de tudo, o que se desconhece em termos de intervenção pública na área da Educação e a aparente ausência de força e capacidade de decisão que podem assumir no seio do Governo, particularmente, se tivermos em conta as mudanças que urge implementar no sistema e os seus impactos políticos.
Sobretudo, para quem deu a entender aos professores, num golpe eleitoralista, que havia condições para uma reforma consistente da Educação, montada em medidas programáticas detalhadas e estudadas, relativamente às quais Pedro Passos Coelho chegou a afirmar (e cito da intervenção proferida na sessão de apresentação do livro de Santana Castilho, O ensino passado a limpo) "concordo muito com a esmagadora maioria" das mesmas, este Ministério da Educação, no que ao ensino básico e secundário diz respeito, não podia constituir logro e desilusão maior.
Tudo isto, claro está, sem qualquer desprimor ou deselegância para as pessoas em causa, as quais revelam uma coragem inaudita, tendo em conta os tempos difíceis que vivemos e face à visão equívoca que Passos Coelho parece ter da Educação, mas também se considerarmos a eventual indisponibilidade de muitas figuras de primeira linha que se furtam a responsabilidades governativas, nos momentos decisivos.

Domingo, 26 de Junho de 2011

Mais uma evidência para o seu "portfoleiro"?

In Expresso, 25-06-2011 (captura fotográfica)
Poucos ministros, desde o 25 de Abril de 1974, tiveram um desempenho governativo tão abortado e deixaram uma herança tão perturbadora e disruptiva para a instituição escolar, como foi o caso de Maria de Lurdes Rodrigues.
Foi a imposição arrogante de uma divisão na carreira, consumada na base de critérios fortuitos e definidos a posteriori de uma forma tremendamente injusta. A divisão já foi revertida, mas muitas mazelas ficaram a marcar as relações e o quotidiano das escolas.
Foi a implementação à bomba de um modelo de avaliação absurdo, inoperacional e destituído de seriedade, na substância e na forma como confunde avaliação e classificação e, sobretudo, como colocou qualquer um a avaliar qualquer outro. Ainda acredito que esta aberração estará prestes a implodir nas escolas, embora o prejuízo causado aos professores e às escolas deixará sequelas duradouras.
Foi a produção demencial de legislação e de orientações que tornaram a vida escolar uma burocracia insane, feita de rotinas e de ocupações artificiosas e inúteis.
Foi a desorientação regulamentadora, como o comprovam as revisões sucessivas do Estatuto do Aluno.
Foram as medidas inconsistentes, sem enquadramento, continuidade ou avaliação, como paradigmaticamente exemplificadas na distribuição a patacos de computadores.
Foi a obsessão propagandística e estatística ou a orientação facilitista inerente a muitos cursos profissionais e às Novas Oportunidades.
A lista seria quase interminável.
O episódio relatado na notícia será, porventura, mais um indício que vem pôr a descoberto a dimensão farisaica da pretensa moralização e domesticação, por decreto, da conduta dos professores, que apenas redundou em fragilização do prestígio e da autoridade deste grupo profissional (tivesse a condução dos assuntos do Estado níveis de competência, de eficiência e de ética similares aos actos e às decisões que ocorrem nas escolas e, certamente, o País não estaria confrontado com a situação crítica actual).
A confirmarem-se, nas instâncias próprias, as graves acusações insertas na peça jornalística, então, à incompetência política e técnica, enquanto ministra da Educação, acrescerá uma falha demolidora no que devia ser a exemplaridade de uma conduta que exigiu aos outros o que pareceu dispensar para si própria.
A uma entrada de "leoa", secundada de elogios e prebendas, manifestamente precipitados e infundados, seguir-se-á, politicamente falando, a sorte vegetativa dos cactos do deserto.
No entanto, também é verdade que, agora, parecem cómodas e avisadas as crucificações póstumas, sobretudo, para aquele jornalismo e comentarismo que a protegeu e endeusou em vida (política, obviamente).

Uma "sociedade" multicultural

Olhe que não! Olhe que não!

In Expresso, 25-06-2011 (captura fotográfica)
Quando passar o "efeito de mera exposição", quando muitos professores compreenderem até que ponto o vedetismo mediático de uma personagem pode ser gerador de processamento esquemático da informação consubstanciada no actual programa eleitoral do PSD e quando os professores das escolas estatais forem confrontados com o reforço do poder discricionário dos directores, com o amiguismo, a partidarite e a cunha a imporem-se como critérios de contratação de professores, com os privilégios e incentivos concedidos às escolas privadas, com a convocação invasiva e desestabilizadora dos interesses políticos/partidários locais para as escolas, com uma classificação de professores eventualmente a cargo, não da IGE - como deveria, mas de um corpo de especialistas"para-quedistas" (privados?!...) e com a prossecução da actual política de constituição de mega-agrupamentos, aí, não duvido, o estado será mais de desgraça e as expectativas ter-se-ão esfumado.
Até lá, o "carteiro Paulo" vai distribuindo, a partir da sua gaveta, quer insinuações desacertadas sobre "convites", "oferendas" e "paternidades" que desconhece absolutamente, quer, como é aqui o caso, as concomitantes certificações de estado de graça e de elevadas expectativas.

Escola de massas versus escola elitista?

O Miguel Reis enviou-me, com sugestão de divulgação, o texto que publico a seguir (já disponível em vários blogues), no qual procede a um exame da visão que Nuno Crato tem da escola, procurando colocar em confronto a actual escola de massas, que defende (uma vez descontaminada do autoritarismo burocrático dos últimos anos), e uma pretensa escola elitista postulada pelo actual Ministro da Educação, a partir do exíguo e panfletário pensamento pedagógico, organizacional e curricular que se lhe conhece.
É salutar que concepções e programas sejam submetidos ao escrutínio e ao debate, pelo que saúdo a reflexão do Miguel, ainda que a minha perspectiva não seja coincidente, nem com a expressa neste texto, nem com a visão de Nuno Crato ou, sequer, com a actual formulação do programa eleitoral do PSD (veremos a salsada que sairá para efeitos de programa de Governo), como terei oportunidade de explicitar logo que apazigúe os meus compromissos profissionais e académicos.
Mas, o relevante é que se abra o debate das questões fundamentais, de forma a que as escolas não tenham que ser novamente escravizadas por uma ortodoxia de sinal contrário, que faz da autoridade dos professores uma abordagem pouco mais que mitificada, como tenho a expectativa de vir a conseguir demonstrar, e da exigência um mero epifenómeno de um credo métrico descontextualizado e, muito possivelmente, discriminatório.
Examinemos o Crato

Sexta-feira, 24 de Junho de 2011

Finalmente, acho que percebi

Confesso que me intrigou a notícia da eventual decisão de Sócrates de cursar Filosofia em Paris, de tal forma que, a cada passo, dava comigo, ensimesmado e inquieto, na demanda das motivações que, supostamente, o terão levado, mais de meio século depois de ter esventrado a unidade da massa ilimitada e informe (ἄπειρον) de que falava Anaximandro, a desejar percorrer as vias (as de Parménides constituiriam um excelente começo) da razão filosófica.
Formulei inúmeras hipóteses, sob a forma de questionamentos:
- revisitar a Filosofia Grega por sugestão homónima?
- suprir a falta de solidez e de densidade filosófica das suas decisões e actuações políticas, procurando os ensinamentos da Filosofia Política?
- aprofundar as abordagens da Estética, por forma a estar em condições de dispensar a assessoria do Luís?
- tomar contacto com a Filosofia das Religiões, mercê de uma repentina conversão religiosa, por influência das experiências místicas do primo que, porventura, lhe possam ter sido transmitidas por email?
- afastar o epíteto de "mentiroso", com que tantas vezes foi mimoseado, procurando, na Teoria do Conhecimento, na Epistemologia e na Lógica, os fundamentos e os processos de construção/desconstrução da validade e da "verdade"?
Nada disto!...
Esta crónica do José Diogo Quintela propiciou-me as pistas que me faltavam para a desocultação da razão que pode ter desencadeado esta paixão tardia pela Filosofia: um genuíno impulso ontológico e metafísico, ou seja, uma tentativa, porventura desesperada, de justificar a inexistência da realidade concreta e quotidiana que o tramou politicamente, e a que, coerentemente, sempre negou qualquer "ontos", ao mesmo tempo que conservará uma réstia de esperança de que, pela via filosófica, consiga demonstrar a realidade fundante do mundo privado e alienado, em que, com recorrência, foi acusado de viver.

In Pública, 19-06-2011

Rataria escondida com rabo de fora

Este gajo (ou gaja, atendendo às revelações surpreendentes que nos têm chegado de desocultações recentes) escreve um post infame, lançando insultos canalhas a uma pessoa bem identificada, honrada, corajosa, frontal, qualificada e preparada como nenhum outro, em matéria de Educação, sem que recorra a nenhuma argumentação e fazendo-o, escondido, impotente, medroso e cobarde, atrás do arbusto do anonimato.
Enquanto esta personagem não tiver a decência de sair do anonimato, não terá, da minha parte, qualquer outra resposta, escreva o que escrever, pois, doravante, reitoria será sinónimo de rataria, cobardia e estrumeira.

Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

Avaliaçãocite, Examecite, Linearicite e Mudancite


A audição de partes deste discurso não augura nada de bom para o tratamento da epidemia que nos últimos seis anos se instalou no seio da escola pública.
Não pretendo entrar, sequer, pelo evidente oportunismo de algum encavalitanço que se começa a fazer sentir por aí seguindo, talvez, as pisadas de quem prometeu que iria melhorar um certo programa mas que, afinal, não passou de uma promessa oca e que se enquadra num tipo de postura que talvez faça parte da génese de quem, já pela terceira vez, não cumpre o que é assumido publicamente.
Cinjo-me, e de um modo tão linear quanto o expresso no discurso anteriormente aludido, às ideias propaladas em tal intervenção que, para além de raiarem o senso comum, mais parecem que são proferidas para cavalgarem a onda da altura como para caírem no goto da generalidade das pessoas que as venham a ouvir.
Insistir na ideia peregrina de indexar os resultados dos alunos à avaliação de desempenho docente, sejam eles os dos exames ou de outro processo qualquer de avaliação, parece-me um erro Crato, perdão, crasso que pensávamos já ter desaparecido com a ex, agora acusada, Ministra da (des)Educação, Maria de Lurdes Rodrigues.
Não posso deixar de me lembrar da minha (EXCELENTE, sem evidências) Professora de Inglês dos meus tempos dos 3º e 4º anos (actuais 7º e 8º) que, de um ano para o outro, passaria de Excelente para Insuficiente. Eu explico. Na verdade, enquanto o programa da disciplina se limitou aos meros “escreve-se-rato-lê-se-cão-e-quer-dizer-gato” todos os alunos obtiveram notas excelentes. A coisa complicou-se no ano seguinte em que os mesmo alunos se viram confrontados em ter que “calcorrear-as-westminster-as-cathedrals-os-queen’s park” onde tiveram uma quebra de rendimento que nem o mais pessimista imaginaria!
E que dizer do caso de um outro professor que, de um ano para o outro, viu o rendimento de alguns dos seus alunos diminuírem de um modo brusco pelo facto de, durante as férias grandes (na altura ainda se podiam chamar assim), se terem enveredado, e iniciado, por caminhos nada compatíveis com a vida salutar de estudante?
Por isso, o modo linear como se apresenta o exemplo de uma turma com média de 15 ser entregue a um professor que a larga com média de 12 não pode ser equacionado de um modo tão simplista no que à menor competência do professor se reporta e raia mesmo a incorrecção, para não lhe chamar outra coisa, mas isto, seguramente, é o que as pessoas gostam de ouvir, não é?
Já agora, e também do mesmo modo linear, será justo e correcto serem considerados na avaliação de desempenho docente os resultados dos exames dos alunos sabendo nós das assimetrias que existem entre o interior profundo (onde ainda há escolas, felizmente, apesar dos megas…) e um grande centro urbano?
E que equidade vai haver na avaliação de desempenho docente entre um professor dessa bonita área que é a Matemática, disciplina sujeita a exame, e um professor de Educação Física ou de Educação Tecnológica, disciplinas sem exame?
E por falar, ainda, em exames. Exame de entrada na profissão para futuros professores?! Mas isso não é passar um atestado de incompetência às escolas superiores? Não seria melhor pensar-se numa intervenção a esse nível? Mas isso, lagarto, lagarto! Nem se fala! E muito menos se fala da avaliação de desempenho docente do ensino superior! De questões relacionadas com o ensino superior, cruzes, canhoto, foge-se a sete pés!
Se for, efectivamente, esta a visão e o remédio para a febre da avaliaçãocite e do examecite parece-me que estamos mesmo conversados.
O estado de Crato, desculpem, o estado de graça não é compaginável com o silêncio sepulcral que se abateu sobre uma classe docente que mais parece anestesiada pela febre da mudancite na prática docente que se esgotou com a contagem dos votos de umas eleições bem perto de si.
Da minha parte cada vez estou mais convencido que “este ensino não é para velhos”. Começa, pois, a ser a hora de pensar em “pegar na trouxa e abalar”.
Para mim, chega!

José Aníbal Félix de Carvalho

E a Farsa prossegue o seu caminho

Passadas 48 horas, desde a tomada de posse do Governo, ainda nenhum sinal foi dado, nem pelo primeiro-ministro, nem pelo ministro da Educação, relativamente à revogação liminar do modelo e dos processos de avaliação do desempenho em curso, bem como de todos os seus efeitos, especificamente em termos de progressão e de concursos.
Bem sei que a agenda financeira-económica do Governo é prioritária e absorvente, da mesma forma que as questões orgânicas e a constituição das equipas ministeriais ainda não estão consumadas, mas, à semelhança do que ocorreu com o anúncio do fim dos governadores civis (convém não esquecer que o ministério da Educação também tem, nas Direcções Regionais, os seus "governadores civis"), trata-se de dar um sinal à sociedade que o novo Governo não pactuará, um minuto que seja, com processos "kafkianos" (foi assim que Passos Coelho os qualificou, no decurso da campanha eleitoral), nas escolas estatais.
Por cada hora que passa, sem que haja lugar a uma mensagem pública e inequívoca nesta matéria, permitindo que se continue a conviver, diariamente, com a perturbação, a conflitualidade latente, a prepotência, a ocupação inútil e a falta de seriedade e transparência, o Governo vai hipotecando o seu crédito junto de muitos professores e, sobretudo, vai adensando o cepticismo sobre a real predisposição de Passos Coelho e do PSD para honrarem, quer tentativas recentes de revogação desta ADD, quer as suas intervenções eleitoralistas, neste domínio.
Muitos professores aguardam que, da parte do Governo, alguém quebre o silêncio, seja em que sentido for, porque, até lá, há uma Farsa, nas escolas, que continua a ser encenada e está prestes a atingir o seu clímax de absurdidade e de arbitrariedade.
A título de desabafo, espero que a dilação, no anúncio e na tomada de decisão relativos ao enterro do modelo e dos processos de avaliação, não seja uma consequência de o PSD já não dispor de quem lhe faça, eventualmente, a "papinha" do texto para a revogação da "coisa", até porque não lhe faltarão especialistas e nada insignificantes cristãos novos preparados para tal.

A libertação de Sócrates

In Visão, 16-06-2011

Quarta-feira, 22 de Junho de 2011

Brilhante!

Ninguém bate o Luís Costa em criatividade e sentido de humor.
A sua descoberta do Carteiro Paulo a zelar pela entrega (quem imaginaria este súbito encavalitanço!) do correio da educação do PSD, só lembraria ao seu génio.
Temos ícone para uma legislatura.

A tão aguardada, e esclarecedora, crónica de Santana Castilho

Passos e Crato: factos e expectativas
Santana Castilho *
Sobre o que já foi dito a propósito da parte conhecida do novo Governo pouco se poderá acrescentar. Impera a ortodoxia financeira do Banco Central Europeu, coadjuvada pela tecnocracia operacional do FMI. Três economistas (Victor Gaspar, Álvaro Santos Pereira e Nuno Crato) e um gestor (Paulo Macedo) fazem a quadratura do cerco. Se Paulo Macedo mandar rezar missa no fim, é porque o Bom Escuteiro acertou nas segundas escolhas.
A competência técnica abunda, ainda que deslocada de campo, nalguns casos. Mas um Governo que se limite a uma corporação de técnicos competentes não governa. É governado. Na segunda-feira passada, Assunção Cristas fez curiosas declarações na Assembleia da República. Disse que, quando chegou ao parlamento, sabia menos de áreas onde produziu trabalho do que hoje sabe de agricultura, de que, reconheceu, sabe muito pouco. Não disse o que sabia ou seria capaz de aprender sobre o ambiente. Mas a sinceridade, o voluntarismo e o progresso contextual ficaram documentados. Só tenho pena da Agricultura. 
Paulo Macedo fez um trabalho notável como director-geral dos impostos. Na altura, condicionou a aceitação do cargo à percepção de vencimento igual ao que auferia no BCP. Agora, apesar de ter subido, entretanto, na hierarquia do banco, aceitou o miserável vencimento de ministro. Causa perplexidade a mudança. E causa ainda mais ver tal pasta entregue a quem, do ramo, só tem no currículo ter sido administrador da Médis. Para a saúde dos portugueses, é muito pouco. Para a saúde dalguns, que vivem da doença dos outros, pode ser salutar.
Bem consciente do ónus de me declarar tão cedo contra a corrente, não comungo da euforia generalizada, que abriu braços à Educação. Explico o que posso explicar. Em Abril, Passos Coelho tinha um programa eleitoral para a Educação. Em Maio tornou público outro, que não só nada tinha a ver com o primeiro, como era a sua antítese. Escassos dias volvidos sobre a divulgação do último, Passos Coelho comprometeu-se publicamente a melhorá-lo. Mas faltou à palavra que empenhou e apresentou-se ao eleitorado com um programa escrito em eduquês corrente, com medidas até a 19 anos de prazo, pasme-se, e que, entre outros disparates, consagrava: a recuperação de duas carreiras no seio da classe docente; o enterro definitivo da eleição dos directores; a diminuição do peso dos professores nos conselhos gerais; o aumento da promiscuidade entre a política partidária e a gestão pedagógica do ensino; a protecção da tirania e do caciquismo; a adulteração do sentido mais nobre do estatuto da carreira docente; a consolidação dos mega-agrupamentos; a manutenção da actividade nefasta das direcções regionais; uma significativa omissão sobre concursos de professores e muitos outros aspectos incontornáveis da política educativa; a recuperação da ideia bolorenta de uma agência externa de avaliação educacional e a subserviência à corporação do ensino privado, por forma que a Constituição proíbe. Os professores, agora em êxtase, esqueceram-se disto? Eu sei que o programa de Governo ainda não é conhecido. Mas só pode resultar do que contém isto e do do CDS. E o do CDS não se opõe a isto.
Nuno Crato é um notável divulgador de ciência e um prestigiado professor de Matemática e Estatística. Em minha opinião, o merecido prestígio intelectual que a sociedade lhe outorga foi trazido a crédito incondicional como político da Educação. No mínimo, o juízo é precipitado. Permito-me sugerir que leiam a sua produção escrita sobre a matéria. Que ouçam, com atenção, e sublinho atenção, a comunicação apresentada em 2009 ao “Fórum Portugal de Verdade” e as intervenções no “Plano Inclinado”. Os diagnósticos não me afastam. Os remédios arrepiam-me. Nuno Crato é um econometrista confesso, que repetidas e documentadas vezes confunde avaliação com classificação. Nuno Crato pensa que se mede a Educação como se pesam as batatas e que muda o sistema de ensino medindo e examinando. E não mudará. Ou muda ele ou não muda nada. Fico surpreendido como os professores deixam passar com bonomia a hipótese, admitida, de contratar uma empresa privada para fazer os exames ou a intenção, declarada, de classificar os professores em função dos resultados. Estes dislates patenteiam pouco conhecimento sobre as limitações técnicas dos processos que advoga e uma visão pobremente parcial sobre o que é o ensino. Nuno Crato, que muitas vezes tem sido menos cauteloso ao apontar o indicador às ciências da Educação, tem agora o polegar da mesma mão virado para ele. Espero que não se entregue às ciências ocultas da Economia para redimir a Escola pública.  
A sustentabilidade do estado social vai pôr em causa os serviços públicos de Saúde e de Educação. No início da sua actividade, como líder do PSD, Passos Coelho trouxe esta questão à discussão política. Como é habitual, evocou a demografia: o Estado social, como o conhecemos, não suportaria a gratuidade desses serviços, numa pirâmide etária com tendência para se inverter. A necessidade de evitar a bancarrota determinou, depois, uma espécie de estado de inevitabilidade e de necessidade nacional que impede, pela urgência e pelo acenar insistente da tragédia grega, que discutamos outras vertentes possíveis de análise. Em todo o caso, teimo em duas perguntas: por que razão a acuidade do problema é menor em países com maior capacidade redistributiva da riqueza produzida? Por que razão uma economia incivilizada passa pela crise sem que a possamos pôr em causa?
* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt) 

Como bem suspeitava, esta crónica do Professor Santana Castilho vem confirmar-me a forma descarada como Pedro Passos Coelho se tornou refém da falta de coerência, como soçobrou à visão pobre, redutora e anti-democrática que um certo aparelho social-democrata tem da Educação e da escola pública, e, o que é mais grave, como usou a Pessoa e as ideias programáticas de Santana Castilho, chegando ao ponto de desbaratar, publicamente, as expectativas de confiança que havia gerado nos professores, na forma como não honrou a sua palavra de "melhoria" do programa eleitoral do PSD para a Educação.
Não há estado de graça, nem benefícios da dúvida, para quem procede da forma oportunista e parasitária como Pedro Passos Coelho procedeu para com Santana Castilho e, sobretudo, para com os professores identificados com as ideias programáticas deste último.
Todavia, não me alongarei, por agora, no meu comentário, até como forma de não criar ruído ou distracção à clareza e ao brilhantismo com que Santana Castilho apresenta, nesta crónica, as questões decisivas em matéria educativa e a miopia e o sonambulismo com que muitos professores as estão a acolher.
Sobre estas questões educativas escreverei, posteriormente, um post específico a que darei o título de "Iremos piorá-lo".

As audiências vão disparar


Saúdo, vivamente, a eleição de uma mulher e de uma transmontana para a Presidência da Assembleia da República e assim catapultada a segunda figura do Estado. Ainda por cima, desculpem-me o atrevimento de homem habituado a resistir a tudo excepto à tentação da apreciação da beleza feminina, quando a Dra. Assunção Esteves acrescenta ao seu currículo, à sua experiência política e à sua inteligência, uma imagem agradável, simpática, desempoeirada e modernaça.
Ficará a ganhar o País, a Assembleia da República e também o canal Parlamento (ARtv) que acaba, inusitadamente, de conquistar um motivo suplementar de interesse e de atracção mediática, adivinhando-se um aumento exponencial das audiências.
Considero, inclusive, que está lançada uma fortíssima e excepcional candidata a Presidente da República, nas próximas eleições presidenciais.
Todavia, também me custou ver Fernando Nobre, um Homem com uma notável dimensão pessoal e moral e com uma folha de serviço ímpar no serviço desinteressado aos que mais sofrem, ser exposto a uma humilhação pela tribo da política profissional, em consequência de uma decisão imprudente de Pedro Passos Coelho (ou terá sido mais uma estratégia de "utilização" de uma pessoa, no sentido de arrebanhar mais uns milhares de votos, para depois ser descartada na primeira oportunidade, à semelhança do que ocorreu com Santana Castilho?).

Terça-feira, 21 de Junho de 2011

Em jeito de reacção aos mais, menos e nada entusiastas da quarta opção

Estou, hoje, ciente de que a escolha de Nuno Crato para Ministro da Educação correspondeu, na linha de sequências na cabeça de Passos Coelho e em face de três impossibilidades e indisponibilidades manifestadas (Santana Castilho – Paulo Rangel – António Rendas), a uma quarta opção e a uma solução de recurso, o que não significa que o escolhido não case magnificamente com a parte mais odiosa do programa eleitoral do PSD para a Educação, a tal que Passos Coelho se comprometeu a “melhorar”, mas que, tendo em conta a escapatória ministerial encontrada, estou certo que irá piorar (como demonstrarei em próximo post).
Desde o rebentar da contestação à divisão na carreira e ao modelo socialista de avaliação do desempenho dos professores, que me habituei à contingência de ter razão por antecipação, o que, normalmente, redundou em críticas, remoques, ataques e imputações de diversa índole, desde o lirismo quixotesco condenado ao fracasso na reivindicação do fim da lotaria dos titulares (divisão considerada irreversível pelas complexas disrupções que a sua eliminação traria ao sistema – viu-se!), até ao radicalismo, terrorismo, divisionismo e défice de compreensão nas denúncias imediatas dirigidas às estratégias congeminadas para preservar o núcleo essencial de aberrações do modelo de avaliação, como o foram o “memorando de entendimento” e o “acordo de princípios”, enquanto outros, sempre tão avisados e prescientes, se entretinham a mastigar, com inchaço e “dores de incómodo”, pastilhas à base de "nim".
Todavia, o mais extraordinário é que há quem continue a discorrer de cátedra sobre processos e actuações que desconhece em absoluto, dando, inelutavelmente, prova de ignorância. Mas, quem opina, julga e qualifica outros a propósito de factos e circunstâncias que sabe que ignora, dando-se ares de uma presciência que não possui, agravada por um doentio proselitismo que policia e anatematiza discordantes, dá prova de estupidez e vê-se embarcado em excitantes juízos de intenção que apenas projectam obsessões, traumas e idiotices próprias.
Para aqueles, alguns assumindo-se como tipos particulares de Priores do Crato, que fingem não perceber a natureza da minha “fixação” em Santana Castilho, então, vou explicar pela derradeira vez, antes de me ver constrangido a ter que fazer um desenho. E as razões são as duas seguintes:
- existe uma convergência absoluta de posições sobre a Educação e uma coincidência total entre as ideias programáticas que Santana Castilho defende (não esgotadas em tiradas mediáticas inconsequentes, mas, ao invés, assumindo a forma de concepções desenvolvidas, consistentes e públicas) e aquelas que eu gostaria de ver implementadas pelo Ministério da Educação;
- é minha convicção pessoal, por mais urticária que cause em protogenerais de exércitos de nicknames, que o Homem mais bem preparado para assumir os destinos da Educação, em Portugal, é, a grande distância de outros quadros e de um ou outro pavão, o Professor Santana Castilho.
Mas, não quero deixar de sublinhar a reacção do Mário Machaqueiro, que obviamente não está na mira dos parágrafos anteriores, tendo em conta que é alguém por quem tenho muita estima e admiração e com quem me orgulho de ter planeado muita da resistência dos professores ao socratismo, e em relação à qual me apraz responder em dois planos:
- de um ponto de vista emocional e moral, talvez tenha o defeito de confiar na boa-fé das pessoas, chame-se-lhe ingenuidade ou lirismo, mas nunca me sinto de consciência pesada no final das minhas estratégias de actuação, por mais mal sucedidas que possam ser, pois, não me parece que seja eu, aparte a menor fotogenia, a ficar mal nas fotografias;
- já por várias vezes explicitei a natureza do meu pragmatismo político, que admito não seja coincidente com a visão do Mário, bem como já deixei claras algumas estratégias, sem pretensões de representar ninguém a não ser a minha exigência intelectual, a que recorro no âmbito de uma procura da vinculação das pessoas a pequenos compromissos para chegar a outros de maior dimensão (e esta técnica de “pé na porta” até foi dando resultados na luta contra a divisão na carreira e o modelo de avaliação), mas não tenho dúvidas que os professores nunca estiveram tão perto, como desta vez, de verem satisfeitas uma parte substantiva das suas reivindicações, pela via da possibilidade, que não foi uma miragem, de Santana Castilho chegar, como devia, a Ministro da Educação. Talvez, se muitos não se tivessem demitido ou tergiversado tão prematuramente no apoio a esta solução, tivesse sido possível influenciar/pressionar outra orientação para o programa do partido que, pragmaticamente, estava em condições de poder chefiar a governação do País.
E para rematar, também confesso que, uma vez aqui chegados, talvez tenha perdido as certezas sobre se é o meu pragmatismo e as minhas técnicas de “pé na porta” que são líricos ou se é mesmo o PSD que parece não estar à altura das expectativas que, a dado momento, cria e dos Passos que dá (ninguém acha estranho que se convide alguém para fazer um programa e, à última hora e à socapa, se introduzam medidas no programa que afrontam princípios da pessoa que, não inconscientemente, assim o quero crer, foi convidada?), revelando-se oportunista e pouco confiável.

Segunda-feira, 20 de Junho de 2011

Desandem, pá!

É absolutamente inacreditável a insistência na farsa consubstanciada no actual modelo de avaliação do desempenho, apesar de a equipa ministerial já estar despedida e de existir a convicção, presumo que também entre os autores da pérola documental que se apresenta de seguida, de que o fim desta avaliação aberrante e destituída de seriedade estar iminente.
Até ao último minuto do derradeiro dia esta gente persiste em ocupar inutilmente professores e escolas com coisas como um Manual de Utilizador - Avaliação do Desempenho do Pessoal Docente.
Para ser arquivado no baú de horrores do socratismo. 

Domingo, 19 de Junho de 2011

Novamente as evidências deste modelo de ADD

A crer na notícia, as classificações negativas a Matemática, nas recentes provas de aferição realizadas por alunos dos 4.º e 6.º anos, não param de aumentar.
Estas provas, recorde-se, não contam para avaliação, mas que poderão (a crer no novo governo) vir a contar. 
Está visto que quanto mais a tão proclamada avaliação de desempenho docente (ADD) se “entranha” nas práticas docentes, piores são os resultados das aprendizagens dos alunos. De facto, não deixa de ser, no mínimo, curioso o facto de, quanto mais ADD, menos aprendizagens. Exemplos não faltam. Recorde-se, apenas para ilustrar a coisa, que o jornal "Expresso" de 13 de Novembro de 2010 referia algumas das lacunas dos alunos então evidenciadas nas provas desse ano, como cerca de 70 % (setenta por cento!!!) não conseguirem ordenar alfabeticamente um conjunto de palavras começas por “m”, mais de 60 % (sessenta por cento!!!) não conseguirem identificar sujeito e predicado em frases com pouco mais que meia dúzia de palavras, quase 50 % (cinquenta por cento) dos alunos não conseguirem responder a quanto é um quarto de oito!!! 
Cada vez é mais evidente que este modelo de ADD, basicamente uma recauchutagem do anterior de MLR e companhia, pode ser muito bom para a fotografia, para o folclore, para a imagem, no fundo para o faz de conta. Isto para não se entrar em aspectos como o clientelismo, a delação ou a intriga. No fundo, tudo conta para a avaliação, desde que não seja ensinar e aprender… O problema é quando é preciso mostrar “serviço”, ir a jogo! Uma coisa são as “notas” que se dão, nomeadamente as das avaliações internas; outra, bem diferente, é a aprendizagem, ou melhor, a qualidade da(s) aprendizagem(s). E, pelos vistos, os resultados dos exames não enganam mesmo nada: alguma coisa vai muito mal no reino da Educação. 
Quem anda no terreno sabe que ensinar (e aprender) não é fácil, é algo que exige esforço, dedicação, muito trabalho e persistência, tempo para reflexão, tempo para pensar, tempo e disponibilidade para trabalhar no que é essencial, o que é claramente incompatível com um modelo para as “evidências”. É por demais evidente que este modelo não passa de uma fraude, que em nada contribuiu, nada contribui e nada contribuirá para a melhoria da qualidade das aprendizagens!
Manuel Salgueiro

Sábado, 18 de Junho de 2011

A montanha pariu um Crato

Lamento contrariar o coro quase geral de contentamento com a escolha de Nuno Crato para Ministro da Educação, pois, considero tal notícia uma decepção, quando não mesmo o eventual resultado de uma encenação ou de um logro.
Sempre defendi que o programa do PSD para a Educação, com ou sem "melhoria", dependia muito do Ministro que o viesse a implementar: com José Manuel Canavarro poderia ser uma quase continuidade do socratismo; com o Professor Santana Castilho (a Pessoa que, de longe, melhor conhece o terreno e estava mais bem preparada para assumir a pasta da Educação) constituiria uma ruptura com o passado e tornar-se-ia uma esperança para os professores e as escolas (milhares de professores votaram no PSD tão-só porque tinham a expectativa de que o Professor Santana Castilho pudesse assumir os destinos da Educação); com outros, como Nuno Crato ou António Rendas, que desconhecem as realidades concretas dos ensinos básico e secundário, além de umas tiradas mediáticas grandiloquentes, o programa do PSD ficará uma incógnita e uma oportunidade para experimentalismos e equívocos.
Deste ponto de vista, considero que o PSD e o País perderam uma oportunidade única de "limpar" o Ensino e de pacificar e credibilizar a Educação.
Aliás, não acho nada normal, nem saudável, nem transparente, que se encomende ao Professor Santana Castilho um programa eleitoral e um livro (para arrebanhar professores) e se escolha uma outra personagem ( relativamente à qual não se fez constar publicamente que tivesse participado na elaboração do programa eleitoral ou que tivesse sido usado, durante a campanha eleitoral, para levar os professores a votarem no PSD) para executar um programa que plasmou o essencial do texto do Professor Santana Castilho e lhe "plagiou" passagens do seu livro.
Tendo em conta o processo de elaboração do programa eleitoral do PSD para a Educação, de duas, uma:
1) o Professor Santana Castilho não aceitou o convite para Ministro da Educação, por quebra, da parte de Pedro Passos Coelho, do compromisso assumido publicamente em "melhorar" o programa eleitoral. A ser assim, ficará, mais uma vez ilustrada a verticalidade e a fidelidade a princípios que estrutura o carácter do Professor Santana Castilho;
2) Pedro Passos Coelho não convidou o Professor Santana Castilho para assumir a pasta de Ministro da Educação e, então, tendo em conta o processo acima referenciado, revela um oportunismo e uma instrumentalização da Pessoa e dos professores que não augurará nada de bom para o futuro.
Vou aguardar esclarecimentos, para fazer um juízo mais definitivo e definir melhores, ou piores, expectativas relativamente àquilo com que os professores poderão contar da parte deste PSD.
Mas, também não deixa de ser reconfortante e prometedor assistir ao alargamento da influência da direita e do centro-direita a pedantes de esquerda, habituados a zurzir no PSD e agora tão entusiasmados, senão mesmo triunfantes, com a governação que se anuncia para a área da educação. Faço votos de uma profícua e duradoura cooperação estratégica entre todos!...

Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

Por favor, não tornem este momento mais difícil do que já é

Fonte: Jornal I
À semelhança de outros estudos e de resultados anteriores deste estudo do grupo GFK, os professores constituem o grupo profissional em quem os portugueses mais confiam, reconhecendo-lhes a dedicação, o empenho e o profissionalismo diários.
Para aqueles, como Maria de Lurdes Rodrigues e José Sócrates, que tudo fizeram para achincalhar os professores e para veicular uma imagem mediática degradada dos mesmos, sob acusações, mais ou menos explícitas, de privilegiados, incumpridores, mandriões e ineptos, este tipo de notícias assume sempre a forma de "bofetadas de luva branca", tornando-lhes o actual momento de "vassourada" mais difícil de suportar e afundando-lhes ainda mais o sentimento de fracasso, impotência e frustração que os consome.
Também não deixa de causar estranheza, embora ajude a explicar a situação em que o país se encontra, que a comunicação social e o governo da coisa pública continuem ocupados e saturados com aqueles em quem os portugueses menos confiam.

O princípio do esforço mínimo para a obtenção de um resultado máximo

Na sequência desta notícia e desta reacção, impõe-se, quer uma diferenciação ou arrumação conceptual das noções de "copianço", "plágio" e "negligenciação facilitadora", quer duas ou três breves notas sobre memória e coerência quando se trata de enquadrar e de condenar este tipo de práticas desonestas.
Começo pela manifestação de menor gravidade moral, tradicionalmente designada por "copianço" ou "auxiliar de memória" e que prefigurava uma quase metodologia de estudo, pois, vertia-se o resultado do estudo efectivamente realizado em papelinhos manuscritos, de forma a precaver-se qualquer "branca" em matérias muito extensas e complexas, cuja assimilação assentava muito na memorização.
Mesmo que mais duramente castigado no passado, devem os professores continuar vigilantes e punitivos relativamente ao recurso, em contexto escolar, a este tipo de "copianço" tradicional, embora muitas pessoas devam evitar incorrer num excessivo farisaísmo, em termos de uma condenação pública quase talibã, pois, é caso para dizer que atire a primeira pedra, quem, no decurso da sua vida académica, nunca recorreu a um "auxiliar de memória".
O dramático é que, de uma forma geral, os alunos, hoje em dia, já não elaboram "copianços", limitando-se alguns a mimetizar o padrão geral da desincentivação do estudo e do esforço, o que os leva, sem nenhum empenho, a "plagiar" conteúdos já elaborados, seja por colegas mais diligentes, seja a partir de sínteses de livros ou sebentas, aproveitando a possibilidade técnica de efectuar reduções através de computadores, impressoras ou fotocopiadoras.
A maioria das cábulas que os alunos utilizam na actualidade, muitos trabalhos entregues em escolas e universidades, muitos documentos-resposta que circulam em salas de testes e muitas situações em que se reproduzem as respostas do colega do lado, como parece ter ocorrido no caso dos candidatos a magistrados, configuram mais a noção de "plágio", enquadrando-se no que designo de princípio do esforço mínimo para um resultado máximo.
E este princípio, alimentado, nos últimos anos, também por exemplos paradigmáticos de "negligenciação facilitadora", como as condições em que um primeiro-ministro obtém uma licenciatura, inúmeras certificações das Novas Oportunidades e o facilitismo no ensino básico ou em cursos profissionais, considero-o da maior gravidade, pois, além da eventual desonestidade subjacente, mina, tanto a formatação do carácter dos indivíduos em termos da desvalorização do trabalho, do esforço e da exigência pessoal, como derruba o valor social da atribuição/distribuição justa dos resultados de acordo com uma estimação séria e rigorosa do mérito.
No caso do CEJ, a situação assume especial gravidade pela forma como arruína a exemplaridade da conduta que é expectável da parte de quem tem, ou virá a ter, funções de administração da justiça, uma vez que o ónus moral e a condenação do acto aumentam na proporção da maior hierarquia e responsabilidade social, profissional ou política dos actores que o praticam.
Pela minha parte, estarei sempre com aqueles que dão combate ao princípio do esforço mínimo para a obtenção de resultado máximo, mas, em relação ao Dr. Marinho Pinto, teria apreciado uma postura idêntica relativamente às "negligenciações facilitadoras" que por cá abundam.

Quinta-feira, 16 de Junho de 2011

Vantagem, em relação a quem?

Fonte: Visão (crónica de Mário Soares)
Para bom entendedor, três palavras bastam!...

Educação para a utilização das novas tecnologias da informação e comunicação

Mais uma excelente reflexão do Professor João Ruivo sobre o papel da escola e os desafios que decorrem da imprescindível aposta numa consolidada e humanizada literacia digital.
Junho 2011

Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

A farsa em todo o seu esplendor

Confesso a minha relativa indiferença face ao dramatismo que comociona, por estes dias, alguma blogosfera docente, virginalmente escandalizada com manifestações públicas parasíticas de alguns professores que, movidos por um instinto de sobrevivência/desenrascanço (e em nenhum cenário da natureza este tipo de impulso é compatível com as boas maneiras), procuram aceder a relatórios de auto-avaliação já devidamente preenchidos.
O meu descomprometimento com estas situações é absoluto, uma vez que sempre procurei desmontar e denunciar a natureza farsante e artificiosa dos procedimentos que substantivam os processos de avaliação em curso, além de que nunca disponibilizei informações/materiais ou expectativas de disponibilização de informações/materiais que, directa ou indirectamente, de forma intencional ou involuntária, pudessem contribuir para alimentar ou facilitar a implementação e a perpetuação de processos que reputo de arbitrários e pouco sérios, os quais tendem a propiciar a cópia de objectivos individuais e fichas/relatórios ou a induzir a preparação artificial e impressionista de duas ou três aulas que venham a ser observadas por colegas (uns mais hostis e outros mais compinchas).
A este propósito, tudo o que divulguei foram materiais de oposição ou de resistência aberta a este miserável modelo de avaliação do desempenho, nunca alinhando nas ambivalências e dubiedades de quem, estando contra o modelo de avaliação, ia achando que o mesmo já não fosse removível ou ia facilitando o acesso  às ferramentas que garantiriam a adaptação à aberração e, por consequência, a sua perpetuação menos traumática.
Sempre tive uma visão da blogosfera docente como espaços de intervenção de cidadania, orientados para a resistência e a defesa de ideias e de projectos, pelo que nunca valorizei blogues ou sites de "ajuda" ou de disponibilização de informação, porque sempre me pareceu que os professores não carecem de "papinha maizena", pois dispõem de mãozinhas e cabecinha para pesquisarem, conceberem, preencherem e agirem por si próprios. Neste particular, admito ter outra concepção da cooperação e da colaboração entre professores.
Aliás, considero existirem outras formas de sublimar o amor ao próximo, quiçá, num momento de crise, sob a forma de campanhas caritativas mais úteis aos desvalidos e desfavorecidos da sociedade.
Todavia, estas manifestações apenas vêm provar uma de duas coisas ou ambas, qualquer delas desaconselhando a manutenção desta farsa de avaliação:
- este modelo de avaliação não é sério, pois presta-se a este tipo de traficâncias de documentos (e isto é a pura verdade);
- este tipo de práticas também pode exprimir a disposição dos professores para não darem nada de seu e de genuíno a um modelo que antevêem como desacreditado, porque arbitrário e nada sério.
Não duvido que com o fim das palhaçadas que o modelo de avaliação, em vigor, patrocinou nas escolas e em alguma blogosfera, muita gente ficará a perder, desde os protagonistas das condutas das evidências folclóricas, quantas vezes procurando disfarçar fragilidades pedagógicas e científicas, até às condutas parasitárias de muitos saudosistas do faz-de-conta socrático (porque nem todos o fazem por resistência ao modelo), para não falar em blogues de bons samaritanos.

Terça-feira, 14 de Junho de 2011

Demasiados treinos para tão escassa competição

In Público, 13-06-2011
A propósito da temática relativa à administração de testes intermédios no contexto do 3º ciclo (mas, cuja reflexão também alargo ao ensino secundário), supostamente excessiva e perturbadora das aprendizagens dos alunos, tal como se procurou apresentá-la na edição de ontem do jornal "Público", apraz-me empreender a seguinte análise, no pressuposto de que veiculo apenas a minha visão, que sempre exprimi nos órgãos próprios da minha escola de pertença, mas em relação à qual admito, igualmente, legítimas e fundamentadas discordâncias, por parte de outros professores. 
Aliás, a própria circunstância de o GAVE respeitar a autonomia das escolas, deixando-lhes a opção de aderirem, ou não, à aplicação dos testes intermédios, parece-me um princípio de bom senso que, desde logo, esbate uma parte substantiva da controvérsia que este tipo de práticas avaliativas podia desencadear. 
Ainda que seja, por princípio, favorável a uma avaliação exigente e uniformizada das aprendizagens dos alunos, no formato de exames nacionais à quase generalidade das disciplinas em cada fim de ciclo, não confundo, porém, a natureza e as funções dos testes intermédios, que, no essencial, procuram obter uma espécie de mediana das aprendizagens a nível nacional, em cada ano lectivo, que permita balizar uma concepção dos exames ajustada à mesma (daí as variações de grau de dificuldade entre os testes), com a relevância que deve caber aos exames nacionais, enquanto factores que, digam os especialistas o que digam, induzem maior e mais trabalhado investimento da parte dos professores na leccionação das matérias e na preparação dos alunos, além de que funcionam como mecanismos de correcção de disparidades avaliativas que se vão constatando de escola para escola ou de professor para professor, assim como permitem disponibilizar às escolas indicadores fidedignos à reflexão/intervenção conducente à melhoria de processos e de resultados, não susceptíveis de serem disfarçados ou compensados na forma de afectos, atitudes, valores e folclores. 
Se uma lógica de exames nacionais, associada a uma política de autonomia e de avaliação externa das escolas, visa a progressiva qualificação e o gradual robustecimento dos processos de ensino-aprendizagem que estão implementados em cada escola, os testes intermédios partem de uma filosofia oficial diversa (ainda que na prática também possam ter, aqui ou ali, um efeito indutor do ensino e do estudo, não o quero negar), procurando espelhar as realidades no terreno, de molde a aferirem-se conhecimentos médios e se poderem adequar os exames à mediana das aprendizagens ocorridas. 
No quadro da actual política educativa, desvalorizadora de uma filosofia de exames nacionais generalizados e sistemáticos, esta aposta num grande número de testes intermédios assemelha-se a uma espécie de campeonato de uma qualquer modalidade, em que as equipas eram submetidas a excesso de treinos, mas competiam escassamente. 
Do meu ponto de vista, obviamente sujeito ao contraditório, o recurso a esta metodologia de aplicação intensiva de testes intermédios consubstancia: 
- uma orientação centralista e paternalista do Ministério da Educação, substituindo-se à autonomia e à capacidade de organização e de avaliação contínua das aprendizagens, por parte das escolas; 
- uma menorização das escolas e uma desconfiança básica relativamente à capacidade dos docentes para elaborarem testes com a estrutura e o nível de exigência dos exames (por mim, estranho que muitos professores aceitem, de forma tão entusiasta, esta espécie de passagem, mesmo que não intencional, de atestados de incompetência), no quadro de uma leccionação e de uma avaliação do professor ou do grupo disciplinar exigentes; 
- uma óbvia insegurança do Ministério da Educação relativamente ao seu sistema de avaliação por exames nacionais, precavendo a variabilidade nas condições da leccionação, escola a escola e professor a professor, dos conteúdos programáticos de cada disciplina sujeita a exame nacional (leccionações que as políticas educativas dos últimos anos atrapalharam com farsas, burocracias e pressões para a facilitação), e evitando, deste modo, exames nacionais demasiado encostados ao programa oficial ou ao mínimo denominador comum de algumas das suas leccionações concretas.
Como tal, considero que a partir do ponto em que sejam assegurados o enquadramento político, as condições e os mecanismos que suportem uma aposta exigente dos professores nos processos de ensino-aprendizagem, a administração dos testes intermédios deixa de fazer qualquer sentido, ganhando-se em poupança de recursos, em reconhecimento da autoridade e maioridade dos professores e em redução de interferências centralistas e paternalistas na planificação disciplinar e na aferição contínua das aprendizagens dos alunos.

Domingo, 12 de Junho de 2011

Seriam dois péssimos começos em matéria de Educação e que não augurariam nada de bom

Em período de recessão económica e de dramáticos constrangimentos financeiros, por força do aventureirismo irresponsável de Sócrates, deve a Educação constituir um domínio de actuação prioritário para o próximo Governo?
Sim e não.
Sim, porque um dos factores a montante mais decisivos para nos pôr a salvo de futuras crises financeiras e políticas, como a que agora atravessamos, passa pela aposta exigente, séria e continuada na efectiva qualificação cultural, técnica e científica dos alunos e dos portugueses em geral, o que não é compatível com uma política de facilitações (critérios de avaliação em que, no ensino básico, as ditas atitudes e valores excedam 20% - ainda por cima desligadas da valorização do esforço e do empenho, são um dolo para os alunos e uma fraude para a sociedade), com uma visão da escola como armazém de entretenimento ocupacional, nem, sobretudo, com obsessões politiqueiras de mostrar números e resultados a qualquer preço. Tal obrigará a descentrar o foco atencional dos professores (ao invés do estrabismo educacional de Sócrates) para os alunos e para a qualidade e relevância social das suas aprendizagens.
Não, no sentido das prioridades e das agendas socráticas, que, de forma oportunista, absurda e insensata, catapultaram os professores para o centro do debate político nacional, quer sob a forma de tentativas de domesticação/apoucamento dos mesmos, quer no relativo à confusão entre a avaliação dos professores e um modelo (inoperacional) em concreto ou ao subsumir do ensino e das aprendizagens a burocracias, estatísticas e certificações aberrantes, tudo em resultado de estratégias de actuação impositivas, arbitrárias, facilitistas e propagandísticas.
Como tal, torna-se obrigatório desarmadilhar as políticas educativas dos últimos seis anos e concretizar, de imediato, uma ruptura com as orientações socráticas supra-referenciadas, sem lugar a hesitações ou a evasivas.
E, neste particular, há duas decisões iniciais que, a não ocorrerem, traduzirão dois péssimos começos em matéria de Educação e que não augurarão nada de bom, da parte da governação PSD/CDS. Refiro-me às eventuais tentações de NÃO:
1) escolher para Ministro da Educação alguém que não esteja comprometido com as fracassadas políticas educativas de Sócrates, mormente com a farsa de modelo de avaliação que está no terreno, com um modelo de gestão que esvaziou a autoridade dos professores, com uma alienação opaca e ruinosa do património escolar - tal como enquadrada na Parque Escolar, com a orientação imprimida às Novas Oportunidades ou com a distribuição a granel de computadores, sem qualquer enquadramento pedagógico e sem avaliação de resultados;
2) fazer da revogação do modelo de avaliação dos professores o primeiro acto governativo do Ministério da Educação, dando um sinal claro de que não se pactuará, doravante, com farsas e não permitindo, em conformidade, que o ciclo avaliativo chegue ao seu término, tais as arbitrariedades e a diversidade de decisões e práticas anormais que estão a ocorrer pelas escolas do País, além de que o abortamento imediato do processo de avaliação em curso não terá nenhum tipo de implicações na progressão dos professores e até evitará a consumação de vantagens oportunistas e outras injustiças.
Tendo em conta o comprometimento público de José Manuel Canavarro e afins com algumas das medidas enunciadas em 1) e, mesmo, 2), apenas uma personalidade está em condições de assegurar a imprescindível ruptura com o passado e não defraudar as expectativas de professores e escolas relativamente ao futuro. E essa personalidade chama-se Santana Castilho.
Estou firmemente convencido que Pedro Passos Coelho não hipotecará a nossa esperança e não quererá iniciar a governação num clima de desilusão generalizada nas escolas.
Como espero que os habituais comentadores e analistas mediáticos, que durante seis anos deram uma cobertura ignorante e acéfala aos desacertos socráticos, não interpretem as expectativas e as esperanças dos professores, assim enunciadas, como tiques de poder, ameaças ou chantagens, pois é apenas, como a realidade veio demonstrar, a força intelectual e moral de quem procura analisar racionalmente as situações e avaliar sensatamente os problemas.

Finalmente, encheram-se de coragem e zás

A antiga ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima vem, agora, afirmar que Sócrates desvalorizou e menorizou a cultura.
A militante e deputada socialista Maria de Belém Roseira lembrou-se, agora, que Sócrates se esquecia de ouvir.
Torres Couto defende, agora, a necessidade de uma "postura antítese" daquela que marcou a liderança do PS, nos últimos seis anos.
No seu discurso de 10 de Junho, na qualidade de Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, António Barreto sugere, agora, que se proceda ao apuramento de responsabilidades relativamente àqueles que arrastaram o País para a situação actual.
Com excepção de António Barreto, cujo distanciamento em relação à governação socrática e à conduta política de Sócrates já vem de alguns meses, as restantes personagens e respectivas declarações corporizam as primeiras manifestações, de muitas que se seguirão, de revelações, de divergências longamente reprimidas, de afastamentos e de críticas explícitas relativamente a Sócrates e à sua desgovernação.
Pela minha parte, confesso que não me arrebatam, particularmente, as clarividências, os desabafos e as críticas póstumas.
Lamento, até, que, nos últimos anos, tenham sido tantos aqueles que se recusaram a enxergar as opções, as decisões, as actuações e as posturas erradas e insensatas de Sócrates, que muitos de nós denunciávamos diariamente.
Darei, apenas, três exemplos, para além dos sectoriais ou específicos referenciados em cima, que ilustram alguns dos silêncios cúmplices:
- ninguém escutou estas vozes, a criticar a orientação inconsciente e/ou a exigir apuramentos de responsabilidades, quando Sócrates catapultava o endividamento do País para níveis incomportáveis e comprometia irremediavelmente o espaço de decisão e de actuação às gerações futuras;
- sempre que Sócrates insistia num modelo de avaliação rejeitado pela esmagadora maioria dos professores e considerava a avaliação dos docentes como um "desígnio nacional" era expectável que surgissem vozes lúcidas no interior do PS a remeterem essas declarações para os domínios da completa imbecilidade;
- quando o secretário de Estado da Administração Pública, Gonçalo Castilho dos Santos, ameaçou os funcionários públicos que não acatassem a imposição das reformas, admitindo "trucidá-los", estas personagens dever-se-iam ter levantado contra esta espécie de prepotência e de quase fascismo de Estado.
Depois de os portugueses terem desferido a estocada fatal na "fera", não faltarão, doravante, os corajosos de última hora a espetarem as suas farpas.
Mais do que empreender ajustes de contas face ao passado, estou mais interessado em contribuir para o peditório da expectativa de que não volte a ser possível, no futuro, tanto medo, subserviência e cegueira em relação a um líder da estirpe prepotente, incompetente e irresponsável de Sócrates.

Sexta-feira, 10 de Junho de 2011

Querem um conselho? Não percam o vosso precioso tempo com isto


A escassos dias do fim da sua existência, a fazer fé no programa eleitoral do PSD e nos compromissos públicos de Pedro Passos Coelho, o Conselho Científico para a Avaliação dos Professores dá à estampa aquilo que bem poderá constituir a sua derradeira pérola, uma vez que a revogação do miserável modelo de avaliação em vigor arrastará para a extinção mais esta inutilidade saída do génio incompreendido de Maria de Lurdes Rodrigues.
Querem a minha sugestão? Não vale a pena perderem tempo com isto, pois há leituras e ocupações a que os professores se devem dedicar e que são bem mais úteis, bem mais qualificadoras e com repercussões bem mais positivas nas aprendizagens dos alunos.

Por que não te vaias?

E até já "vaias" tarde, pois a escola pública e o país tinham ficado a ganhar se há muito tivesses ido!...
Fonte: JN

Vou ali estudar Filosofia e já volto

In Expresso, 10-06-2011
Tinha-me obrigado a, doravante, ignorar Sócrates, mas já que persistem em continuar a servi-lo aos portugueses, mau grado o cansaço e a rejeição que a sua exposição mediática suscita, aqui fica um derradeiro comentário.
Além do mais, porque o seu patético discurso de despedida e a divulgação de notícias cirúrgicas sobre o seu futuro imediato me cheiram a marketing destinado a preparar uma aparência de lavagem de face e de mudança comportamental que permita anunciar, em 2015, o regresso do Homem Novo.
Embora não tenha nada a ver com a vida privada de Sócrates, sempre lhe deixava a seguinte sugestão: a afinidade homónima com Sócrates, o filósofo, e com o resultado da também desastrada governação grega, aconselhariam que a sua iniciação filosófica devesse ocorrer em Atenas, bem no promontório do Partenon (hoje, Παρθενώνας), de forma a começar pelos clássicos da Filosofia, com destaque para a renúncia à sofística (em que já é mestre) e a conversão à douta ignorância socrática e à verdade platónica, ao mesmo tempo que se condenaria ao contacto culposo, mas expiatório, com uma sociedade também conduzida para o abismo financeiro.

Quinta-feira, 9 de Junho de 2011

A lucidez socialista e a falta dela

Fonte: Diário de Notícias (continuar a ler)
Por diversas vezes, manifestei a minha perplexidade pelo facto de, nos últimos anos da governação socrática, em que a desorientação e os erros se tornaram iniludíveis, não terem emergido vozes de distanciamento crítico ou de oposição aberta a Sócrates no universo dos militantes mais destacados do Partido Socialista. 
E se tivermos em conta o historial de pluralidade de vozes e de múltiplas tendências políticas nos intramuros do PS, mais incompreensível se torna a ausência de debate e de dissensões internas, apenas explicável pela ocorrência de um qualquer fenómeno de entorpecimento colectivo, típico de um groupthink generalizado, mercê da natureza dominadora, altiva e excludente da liderança socrática. 

Dentre as figuras mais mediatizadas do partido, a única desafinação no coro socialista tem sido protagonizada, de alguns meses a esta parte, pelo filósofo Manuel Maria Carrilho, o qual tem vindo a desconstruir, com uma lucidez diurna, os malogros da actuação política de Sócrates e, especificamente, as suas responsabilidades pessoais, tanto na situação crítica do país, como na aridez de alternativas e de confrontação de ideias que hoje caracteriza o PS.
Todavia, também é evidente que, "na terra mais anti-filosófica do Planeta" (Antero de Quental), um pensador lúcido dos fenómenos políticos, já descontado o quinhão do ressentimento pessoal, não mobiliza exércitos dentro do PS, mais tentados pelo chamamento das artes do ilusionismo, das modorras da retórica de teleponto, das viagens de autocarro e da carne assada.

Nos antípodas de Manuel Maria Carrilho está o candidato à liderança do PS, e também licenciado em Filosofia, Francisco Assis, cuja ausência de autonomia estratégica e de espírito crítico face ao socratismo me desiludiu no passado e me repugna no presente, mesmo compreendendo a necessidade de ser respeitado um período de nojo, da parte de quem integrou, com tão escassa atitude filosófica, a "adorada" família socialista do defunto político. 
Incapaz de compreender os contornos da rejeição popular ao estilo de actuação política de Sócrates e à irresponsabilidade com que não quis antecipar-se às crises e ao abismo (não ocorre à inteligência de Francisco Assis que, se as razões para o afastamento de Sócrates se prendessem com as medidas difíceis por ele tomadas, os portugueses alguma vez ousariam confiar o seu voto a quem, como o PSD, deu o seu acordo a esses sacrifícios e nunca os afastou do seu discurso eleitoral para os tempos que aí vêm?...) o candidato "metralha" (Francisco Assis é de longe a máquina de guerra política que dispara mais palavras por minuto, a uma cadência tal que as ideias se vêem reduzidas a mero palavreado) apresenta-se como o fiel depositário do socratismo, o que lhe poderá vir a assegurar a vitória no partido, mas nunca lhe permitirá, em tempo algum, reconquistar a confiança do país.

Admito despedir-me assim...

Como ainda não fui arrasado em nenhuma eleição, não acontecerá tão proximamente despedir-me.
Mas, quando tal se verificar, admito substituir a expressão emocionada pelo aspergir de umas gotículas de "J(e) (vous) adore", nem que mais não seja em homenagem às muitas seguidoras deste blogue.

Quarta-feira, 8 de Junho de 2011

Só com Santana Castilho será possível desengaiolar a Educação

Mais uma excepcional crónica de Santana Castilho, publicada, por coincidência de calendário, no dia em que Pedro Passos Coelho e Paulo Portas encetam negociações formais conducentes à definição/constituição do novo Governo.
Acontece que esta coincidência não é despicienda, pois esta crónica comporta as medidas e identifica o executor para desengaiolar a Educação e torná-la uma mecha de esperança para as escolas e para o país. E Santana Castilho é o único que, nesta circunstância, reúne as condições para este desiderato.
Dentre os vários nomes apontados para a pasta da Educação, rigorosamente nenhum se iguala a Santana Castilho, tanto em termos do conhecimento do sector da Educação, do diagnóstico dos problemas e do aporte das soluções para os mesmos, como ao nível da capacidade de pacificação das escolas e de mobilização dos actores, que, no terreno, constituem a garantia da implementação e do sucesso das mudanças que se impõem.
Mas, na eventualidade de os professores e as escolas verem defraudadas as suas expectativas de poderem contar com Santana Castilho na chefia da pasta da Educação, ademais de ter elaborado a parte substantiva do programa eleitoral do PSD e de ter publicado o livro programático em que a esmagadora maioria dos profissionais da Educação se revêem, tal não deixaria de ser interpretado como um sinal de fraqueza, simbolizando tão-só, quer um desvio de Pedro Passos Coelho à abertura do Governo aos independentes e aos mais bem preparados, quer um claudicar à inércia e ao cinzentismo do aparelho partidário.
Seria, certamente, uma frustração generalizada e um péssimo começo!

In Público, 08-06-2011