Um murro de Santana Castilho na consciência de Passos Coelho e da elite política "laranja" (18-01-2012): As "natas"

Sábado, 31 de Dezembro de 2011

Ainda a tempo do Jantar de Fim de Ano

Sugestão de lagosta à la Troika:

Obrigado, Elisabete! Um Bom Ano Novo!

Contagem decrescente

Desejo um FELIZ ANO NOVO a todos os meus amigos, conhecidos e visitantes deste blogue!

Que os subsídios lhes sejam bem pesados


Ao contrário do ocorrido em Espanha, onde os políticos ainda vão sendo relativamente previsíveis e afinados com as suas retóricas eleitorais, entre nós prevaleceu o ataque brutal e à falsa fé aos rendimentos dos funcionários públicos, surripiando, a cada núcleo familiar, milhares de euros, só em quatro subsídios, certamente, para tapar os buracos dos velhos BPN's e para redistribuir, quiçá, pelos novos BPN's.
Que lhes sejam, politicamente, bem pesados!...

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

A boa e a má inconstitucionalidade

Comentários para quê, se é esta a coerência, a coragem e a gestão de conveniência da (in)constitucionalidade de um político português!

Daqui
Daqui
Daqui

O grande visionário de 2011

É ao génio, mesmo que acidental, de Paulo Futre que o governo de Passos Coelho fica a dever essa espécie de descoberta do caminho económico para a China, que permitiu ao ministro da Economia, ao contrário dos funcionários públicos e de muitos outros portugueses, acabar "o ano bem".
Uma inspiração permanente para o governo de Passos Coelho, assim o quero crer.

Álvalo, vai uma lapidinha?

Surpreende o tempo de duração, menos de dez minutos, da reunião ocorrida entre o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, e o presidente da China Three Gorges, Cao Guangjing.
Descartada a hipótese da incomunicabilidade linguística (há sempre o inglês ou um tradutor), de duas, uma: o ministro da Economia não tem paleio que exceda uns escassos minutos (questões ou constatações meteorológicas incluídas), confirmando um certo desajeito para o cargo; os chineses, ao contrário dos portugueses (que reúnem para decidir se haverá necessidade de fazer a reunião e que até produzem guiões para condução de reuniões), não serão muito atreitos a reuniões, pelo que o novo manda-chuva da Eletlecidade apenas terá ido recordar ao ministro da Economia a paráfrase de um vetusto princípio, de acordo com a qual manda quem paga e obedece quem está (quase) falido.
Não fosse, quer a minha não identificação com regimes do tipo chinês, quer o meu pesar pela nossa perda de soberania, e estaria, a estas horas, a deliciar-me com a ironia histórica de ver neoliberais exultarem com a alienação de partes substantivas de uma democracia capitalista falhada às mãos de um comunismo/socialismo triunfante.
Quando a alienação, mesmo que inevitável, de setores estratégicos da economia nacional nos devia preocupar e entristecer, eis que o contentamento dos neoliberais apenas me desencadeia o seguinte desabafo, por mais anacrónico que possa parecer: não te escondas, Miguel de Vasconcelos, porque a seres atirado janela fora, tal não ocorrerá por traição (já nem sequer se vislumbram, na política portuguesa, o que quer que seja que se assemelhe a restauradores), mas, por força de algum ímpeto comemorativo mais descontrolado.

Às pinguinhas

A forma como o Ministério da Educação e Ciência está a lidar com o programa Novas Oportunidades e, especificamente, com o fecho às pinguinhas dos centros Novas Oportunidades, é bem o reflexo do tipo de atuação hesitante, avulsa e meramente retocadora que tem caraterizado esta equipa ministerial, além de que está absolutamente ao arrepio da perceção e da avaliação (certeiras) que Passos Coelho tinha das Novas Oportunidades, aquando da campanha eleitoral.
Face à expectativa de que o PSD se oporia à filosofia de "certificação" que dominou a orientação socrática do programa, privilegiando, diferentemente, uma filosofia de efetiva "qualificação", o que deveria redundar numa suspensão e reorientação globais do programa (e até renomeação, conferindo-lhe uma marca de credibilidade, que a designação "Novas Oportunidades" perdeu em definitivo), eis que esta equipa ministerial fecha uns centros e mantém outros, criando diferenciações territoriais no direito à formação, em que vazios formativos do tipo "Nenhumas Oportunidades" coexistem com a manutenção de certificações à maneira das "Velhas Oportunidades" da certificação socrática.
Volvidos mais de seis meses de governação, alegar que o programa Novas Oportunidades está "em avaliação" (Passos Coelho pronunciou-se acerca do mesmo sem o conhecer?!...) é um oportuno estratagema para ganhar tempo e disfarçar o desconhecimento e a impreparação desta equipa ministerial, a qual dá mostras de um espírito reformador travado e mitigado pela insegurança que advém da ausência de um programa estudado, predefinido e convicto.
O habitual!...

Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

Fome de saber? Não. Fome de pão!

Fonte: Diário de Notícias
Porventura, o indicador mais impressivo da falência da política portuguesa, na vulgaridade dos seus protagonistas e na mediocridade das suas soluções.

Más práticas

Obviamente, o título do meu último post encerrava uma intenção provocatória, procurando ironizar com aquilo que reputo de uma ligação abusiva e despropositada entre uma médica que se envolve numa tentativa de assalto a uma ourivesaria e o socialista Armando Vara, e que apenas é concebível no quadro de uma desajustada e mal-intencionada prática jornalística, num estilo de exploração de ambiguidades e de transferências de afeto negativo, em que o Correio da Manhã parece ser useiro e vezeiro (ainda, recentemente, associava Rendeiro a Seguro - que só um subtítulo em letras pequenas permitia decifrar que se tratava de uma apólice de seguro).
Compreendo que os jornalistas do Correio da Manhã não morram de amores pelo partido que suportou politicamente as faces de Sócrates e de Vara, enquanto personagens pretensamente ocupados, nos bastidores, quer com tentativas de silenciamento dos "gajos" que escreviam e da "gaja" que noticiava em estilo de "caça ao homem", quer com démarches tendentes à aquisição do jornal, mas, da mesma forma que me indignou o ímpeto controleiro do socratismo e que não aprecio colagens de jornais e televisões aos partidos que detêm o poder (sugere-me sempre uma qualquer forma de prostituição, mesmo que espiritualizada), também não subscrevo este tipo insidioso de práticas jornalísticas. Porque, mesmo que Vara possa não ser "flor que se cheire", é absolutamente irrelevante para a compreensão ou o julgamento do ato da cidadã em causa, que deveria constituir o objeto da notícia, o facto de ela ser ou não ser médica de Armando Vara.
Por outro lado, também me inquieta que, como vi noticiado algures, possa ser verdade que a médica tenha sido "afastada" do Centro de Saúde onde exercia funções, apenas pela circunstância de ter permitido que Armando Vara passasse à frente de pessoas que aguardavam a sua vez para serem consultados.
Deveria ter sido sancionada, sim senhor, embora me custe a acreditar numa pena de cessação de contrato, por totalmente desproporcionada, além de já termos tido conhecimento de ministros que meteram cunhas para que os seus filhos passassem, injustificadamente, à frente de outros, no acesso a cursos universitários, e o que lhes aconteceu foram "batatas".
Não aprecio abusos. Ponto final!

Do tipo viu o ouro e quis robalo?

Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

Uma declaração disparatada e desrespeitosa

Como é possível que um tenente-coronel, na sua qualidade de porta-voz da GNR, produza uma declaração do teor da divulgada em baixo, aparentando estar mais preocupado com a imagem da força militarizada que representa, e com a desresponsabilização da mesma nos acidentes mortais verificados, do que, propriamente, com uma análise objetiva e sensata do tipo de acidentes e da diversidade (também, em responsabilidade) das pessoas falecidas?
A declaração, além de evidenciar uma inacreditável insensibilidade, é ignorante e abusiva relativamente àquelas pessoas que faleceram, não por falta de cooperação com a GNR ou por qualquer impulso suicidário, mas apenas pela infeliz circunstância de terem sido vítimas do incumprimento ou negligência de outros.
Considero que a informação veiculada pela GNR, sobre temas tão sensíveis, deve ser institucional e não deixada ao arbítrio de comentários e devaneios mediáticos.
Será que a GNR subscreve esta declaração?

Fui à "Casa dos Segredos"

A experiência e as leituras interpretativas e críticas da mesma expu-las aqui ao lado

Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

A revisão curricular: explicar o quê?

Talvez, houvesse alguns ganhos de inteligibilidade para o projeto do ministro Crato se a missão de explicar esta revisão curricular, especificamente na sua articulação com metas ainda por definir e com programas ainda não redefinidos, fosse confiada, por exemplo, à "Cátia" da "Casa dos Segredos".
A propósito, a secretária de Estado do Ensino Básico e Secundário continua indisponível para explicar, cabal e regularmente, o que quer que seja?!...

A estupidez também se bebe

Bem sei que, no seu anúncio de Natal de 2011 (em baixo), a empresa que produz essa mixórdia norte-americana, comercialmente designada por coca-cola (apesar de tudo, reconheço-lhe algumas virtualidades terapêuticas no alívio dos sintomas da diarreia), procurou a exploração comercial do viés de positividade, o qual postula que as pessoas tendem a melhorar os seu estado de humor/ânimo e a sentirem-se mais atraídas, e, como tal, mais propensas a consumir, se rodeadas por informações ou estímulos positivos.
Todavia, uma parte do conteúdo do anúncio é, no caso português, deveras infeliz e despropositada, pela circunstância de colar uma ideia de negatividade ao exercício do espírito crítico e à denúncia da situação dramática para que políticos medíocres e irresponsáveis nos conduziram, tornando-se apelativa à demissão e ao desmantelamento da crítica, quando muita da tragédia nacional se deve, tanto à tradicional indiferença, apatia e acriticismo do povo português, como à ausência de debate crítico e aberto de questões, problemas e soluções.
Uma estupidez que, pelos vistos, também é suscetível de ser induzida em estado líquido.

Coca-cola, o ópio do povo?

Se, ao menos, tivesse álcool ou substâncias psicotrópicas na sua composição, sempre teria um efeito de esquecimento e alienação dos problemas graves que afetam as pessoas, alterando-lhes a perceção e a consciência das realidades.

O elogio da filosofia, segundo José Mourinho

Domingo, 25 de Dezembro de 2011

Passos confirma um estilo de governação bipolar

Depois de acompanhar, nas televisões, sínteses da mensagem de Natal do primeiro-ministro e a fazer fé neste resumo, não posso deixar de confirmar o diagnóstico de doença bipolar deste governo, com duas manifestações absolutamente diferenciadas:
- sempre que se trata da definição e imposição de cortes e perdas de direitos, o primeiro-ministro e o governo são rápidos, detalhados e concretos a comunicar e a implementar as medidas, de tal modo que, decorridos mais de seis meses de governação, a única certeza materializada, para 2012, é a "das mudanças e das transformações" dramáticas na qualidade de vida dos portugueses, substanciadas em cortes salariais, aumentos de impostos, falências em massa, crescimento do desemprego e múltiplos outros sacrifícios e afogos;
- sempre que se trata da definição e comunicação das reformas a implementar, o primeiro-ministro e o governo refugiam-se numa retórica generalista, encoberta e evasiva, incapaz de concretizar e detalhar a natureza e o calendário das medidas estruturais que consubstanciam essas reformas, indiciando alguma impreparação do governo, mas, também, receio no anúncio das reformas neoliberais gizadas, o que me leva a concluir que as mesmas não augurarão nada de estimulante e de confiável. A este propósito, e após vários meses de governação, os portugueses continuam às escuras sobre a que reformas, a que mudanças e a que transformações se refere o primeiro-ministro, excluindo aquelas que reportam a imposições unilaterais (estas ocorrem de cima para baixo) em termos de limitação ou retirada de direitos aos trabalhadores e aos cidadãos em geral.
Além desta dissociação estrutural, o primeiro-ministro focou três conceitos basilares, mas fê-lo de forma pouco transparente e nada convincente:
- referiu a existência de "injustiças" na sociedade portuguesa, mas esqueceu-se de reconhecer o seu contributo para o agravamento das mesmas, ao optar por uma distribuição injusta e não equitativa dos cortes e dos sacrifícios;
- enredou-se à volta da "confiança", quando foi o próprio primeiro-ministro a desbaratá-la, faltando à palavra e mandando às urtigas compromissos e convicções eleitorais, ou quando o mesmo já frustrou expetativas e já está em queda na avaliação popular e na confiança que os portugueses lhe concederam inicialmente;
- por fim, falou de "democratização da economia" para esconder, porventura, intenções de assanhada liberalização e desregulação (que, no caso do BPN e do BPP, deram um excecional resultado que, "democraticamente", os portugueses pagam do seu bolso). Caso contrário, como devemos interpretar o conceito de "democratização da economia"? Vão distribuir dinheiro, a todos e a rodos, para projetos? Vão garantir o acesso universal aos financiamentos? Com que dinheiro e fianças?

Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

As três gargantas dos neoliberais portugueses

1ª garganta: o Estado (português) deve sair das empresas e dos setores económicos onde ainda detém presença ou participação, implementando uma política de privatizações que permita alienar/vender as suas posições a grupos e entidades privadas.
2ª garganta: os Estados não devem interferir nos mercados, confinando-se às funções de regulação e deixando à iniciativa privada a participação nas empresas e nos setores económicos.
3ª garganta: o comunismo é incompatível com o capitalismo e com uma sociedade regida pelas leis do mercado.
Tendo em conta que a empresa Three Gorges pertence, maioritariamente, ao Estado chinês, restam escassas dúvidas que a privatização da EDP constituiu, de uma assentada, o silenciamento destas três gargantas.
Se, ao invés da minha identidade social-democrata, perfilasse ideais do neoliberalismo, acredito que nem três gargantas seriam suficientes para me permitirem engolir a adversidade ideológica inerente à privatização da EDP.
Todavia, se os neoliberais, rendidos à moralidade do pilim, independentemente da sua proveniência, conseguem conviver com a dissonância cognitiva que emerge destas contradições bem no miolo dos seus postulados económicos, a mim é-me igual ao litro, embora, neste caso concreto, se recomende que, no meio de tanta congratulação, não deponham a máscara de um conveniente sorriso amarelo.

Para onde emigram os professores, senhor primeiro-ministro?

In Expresso, 23/12/2011
Esta notícia do Expresso ilustra a forma leviana como Passos Coelho se ocupou da situação dramática de milhares de professores que, por força da sua conceção exígua e desprezível da Educação, se debatem e virão a debater com o desemprego.
Passos Coelho apenas teve um discurso consistente sobre Educação no período em que o Professor Santana Castilho lhe facultava a informação e a documentação.
Esta situação ocorreu, apenas, entre Março e Maio de 2011, pelo que, a partir de Junho de 2011, as intervenções de Passos Coelho sobre Educação têm sido um desastre, dando o dito por não dito, legitimando o pior do socratismo, capitulando à política de atuar às apalpadelas do cratismo ou revelando leviandade e ignorância, como no caso vertente.
Quem fala, irresponsavelmente, do que não sabe, emigra para onde?

Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011

(Novas) Fantasias de Natal



No contexto atual, "o peixinho" simboliza os portugueses que acreditaram em Sócrates e em Passos Coelho, "o cão" representa os mercados internacionais, o "gato" escondeu-se em Paris, "o coelhinho" veio para continuar "o circo", ficando apenas por identificar o "Pai Natal" (é a peta da história) e o "palhaço" que acompanham "o coelhinho".
E, ao contrário do que acontece no spot, a bicharada  invocada, excluído "o peixinho", não tem doçura nenhuma, sendo, ao invés, bem amarga e bem penosa de engolir.

Apesar dos apesares, FELIZ NATAL para todos!...

Governo obriga a reescrever a história do Natal

A história de que os reis magos se deslocaram a Belém (não confundir com Palácio de Belém, onde Gaspar não será, porventura, muito considerado), para oferendar presentes ao Menino Jesus, deixou, em Portugal, de ter qualquer aderência à realidade, uma vez que, no imaginário popular dos portugueses, o único Gaspar que conseguem reconhecer é o ministro das Finanças.
Ora, acontece que o nosso Gaspar, que não é rei, nem propriamente mago (mesmo, das finanças), vai obrigar a uma reescrição da história do imaginário cristão católico, porque não só não vem ofertar presentes a nenhum português das classes média e baixa, como veio, por antecipação, surripiá-los.
Da mesma forma, torna-se necessário reinterpretar o pormenor da vinda dos camelos, dado que, ao elegermos políticos tão assaz mentirosos, e cujo génio e clarividência não vai além da opção pelas medidas de rapina mais imediatistas e facilitistas, demos prova de que os camelos já cá estão e somos, infelizmente, nós próprios.

A "doença" dos professores

Procurei diagnosticá-la e explicá-la no lugar Do acidental blog lusitano.

Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Leitura desaconselhada a políticos cagarolas

In Público, 21/12/2011 (Clicar na imagem para ampliar)
Mais uma crónica absolutamente demolidora do Professor Santana Castilho.
Desde a "pantomina" consubstanciada na revisão curricular até à "cobardia política" que rege a dececionante governação de Passos Coelho, Santana Castilho arrasa a ignorância, a incompetência, a mediocridade, a demagogia e um certo saudosismo salazarento que anima este governo.
Tendo em conta os saberes e as competências do Professor Santana Castilho, e uma vez manifestada a sua disponibilidade para contribuir para o debate público da revisão curricular, espero que os governantes e os políticos, tão atrevidamente sabichões e mais dados a entrevistas combinadas e superficiais, não se acagassem, desta vez, e venham debater as questões fundamentais com os verdadeiros especialistas.
Todavia, não tenho grande expetativa que tal venha a acontecer, mercê dos políticos cagarolas que nos governam (veja-se como se encolheram em relação às Câmaras ou aos militares), mas também devido à circunstância das televisões estarem, desde o socratismo ao passoscoelhismo, sequestradas por conveniências políticas e governamentais, tornando-se cúmplices da condução ruinosa da política nacional, por parte de uma rapaziada partidária medíocre, ao não promoverem os debates decisivos e ao matarem as oportunidades para implementar a discussão pública das questões fundamentais da Educação e do país (que exceda a presença habitual da banalidade dos tudólogos e do reumático de economistas e afins).

Incumprimento por incumprimento?

É sabido que muitos funcionários públicos, escorados na convicção de que o Estado é uma pessoa de bem e cumpridora, quer dos contratos que celebra, quer daquilo que legisla, criaram encargos e negociaram planos de pagamentos de bens ou serviços que adquiriram ou contratualizaram, tendo em conta a disponibilidade financeira proporcionada pelos subsídios de Natal e de férias.
Não pertencendo ao número dos analfabetos (apesar de estes ainda serem uma percentagem vergonhosamente significativa para que um primeiro-ministro se entregue ao exercício patético de aconselhar os professores a emigrarem), os funcionários públicos entenderam "inalienáveis" e "impenhoráveis" como insuscetíveis de poderem ser objeto de apropriação ou de confisco por parte de quem quer que seja.
Assim sendo, resulta daqui uma questão deveras consequente: confrontados com o incumprimento "exemplar" do Estado para consigo próprios, podem também os cidadãos incumprir os contratos e os compromissos que estabeleceram de boa fé, e ao abrigo de condições de salvaguarda protegidas pela lei do Estado, com distintas entidades?

Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

Do acidental blog lusitano

Um projeto blogosférico diferenciado que hoje começa a despontar.
Chamei-lhe Do acidental blog lusitano.

Que raio de solidariedades

Não percebo que um partido dito democrático, como o PCP, não emita nenhuma nota de condolências a propósito do falecimento de Vaclav Havel, ex-presidente da República Checa, que lutou pela libertação do seu povo, ao mesmo tempo que se sente tão combalido com o falecimento do Querido Líder da Coreia do Norte, que preservou a opressão e a condição miserável do seu povo.
Como é possível um partido que luta intramuros pela participação democrática, pelas liberdades, pelos direitos e pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores, se posicione internacionalmente ao lado de regimes que:
- renegam a democracia e o multipartidarismo;
- privatizam o poder e o Estado, alienando-os a arcaicas oligarquias familiares;
- coartam ao povo as liberdades básicas, conferindo-lhes um estatuto de menoridade cívica;
- mantêm o povo num estado de absoluto miserabilismo, enquanto a elite governante outorga a si própria as mordomias mais obscenamente capitalistas.
É este tipo de solidariedades internacionais que afasta a esmagadora maioria dos portugueses do PCP e que nunca lhe permitirá uma expressão eleitoral que exceda 1 dígito.

Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

Isto tem tudo para dar para o torto

Quando os atos de governação e quando as sucessivas, e assim banalizadas, entrevistas de Passos Coelho apenas vêm acrescentar ceticismo à desesperança generalizada, esvaziando uma das condições suportivas da aceitação dos sacrifícios, só ficaria a restar a preservação do princípio da distribuição equitativa de cortes e sacrifícios, envolvendo a maioria dos portugueses, de forma a que não haja um lugar de privilégio para filhos e um outro de punição para os enteados da crise.
Se a discriminação negativa dos funcionários públicos já violava o princípio da equidade, enfraquecendo a adesão/motivação/mobilização dos servidores do Estado e colocando portugueses contra portugueses, as notícias de que os funcionários de institutos (INE ou Banco de Portugal) e de empresas públicas podem vir a ser eximidos ao corte dos subsídios, em 2012, terão o condão de vir a entornar, definitivamente, o caldo em que ferve a indignação.
Então, a macacada instalar-se-á, pela certa, se, como escutei nos jornais da noite de hoje, os funcionários da TAP, uma das empresas públicas que continua a acarretar prejuízo para o Estado, viessem a ser poupados ao corte nos subsídios, porque, nesta circunstância, deixa de haver fundamento e moralidade para exigir cortes a todos os restantes servidores do Estado, ainda por cima àqueles que não deram nenhum contributo para a ruína financeira do país.
A confirmarem-se estas exceções, prevejo que venha a haver confusão e da grossa.

Politicamente sodomizados?

Inábeis na leitura de sinais premonitórios e fixados na arte das proporções do Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci, os europeus do sul talvez nunca tenham suspeitado que a sua situação financeira e laboral atual pudesse estar antecipada nesta iconografia do euro. Metaforicamente falando, obviamente.

Domingo, 18 de Dezembro de 2011

Põe-te fino

Fonte: Expresso
Fonte: Correio da Manhã
Amanhã, explanarei o meu entendimento de que Passos Coelho não aprendeu nada com as lições das vicissitudes e da ruína do socratismo, assim como procurarei mostrar as razões e as incidências que o estão a arrastar, inexoravelmente, para o descrédito público e para sucessivos trambolhões nas sondagens, até à derrota eleitoral.

Homens, homenzinhos e outros

Fonte: Jornal de Negócios
aqui havia escrito que o argumento de Paulo Portas, para justificar a sobretaxa sobre os subsídios de Natal, era uma tontaria pegada.
A fazer fé na notícia e como eu próprio suspeitava, o argumento não apenas estava destituído de sentido, como parece assentar numa falsa alegação.
Na política, como na vida, sempre me pareceu existirem, de um ponto de vista moral, três tipos de pessoas: os Homens que se recusam a decidir e a fazer aquilo que, abertamente, colide com a palavra empenhada publicamente e com as suas convicções mais arreigadas; os homenzinhos que dão o dito por não dito e fazem o contrário daquilo que defendiam, embora acabem, esmagados pela realidade ou pelas pressões, a assumir as suas fraquezas e contradições; os outros que não só deixam de agir de acordo com a sua palavra e com os seus princípios, como nem tampouco assumem a responsabilidade pelas suas opções incongruentes, polémicas, negativas ou injustas, esbatendo-a ou transferindo-a para outrem.

Da emigração forçada

Estas declarações de Passos Coelho, aconselhando os professores desempregados a emigrarem (que apenas estão excedentários por força, quer de políticas educativas inconstantes e de contratos chupistas que os vampirizaram anos a fio, quer de ofertas formativas que o Estado, dolosamente, promoveu e patrocinou nas suas universidades), se acrescentadas da sugestão anteriormente feita pelo secretário de Estado da Juventude, não deixam grandes dúvidas sobre a impotência e a incapacidade deste governo para proporcionar as mudanças políticas suscetíveis de projetar esperança e confiança no país.
Definitivamente, o país sonhado por este governo não é para jovens, nem para pessoas qualificadas, nem, sequer, para apostas a sério numa educação qualificante para todos, a qual exigiria a mobilização destes recursos humanos agora empurrados para fora do país (se não têm dinheiro para o fazer, comecem por cortar radicalmente na parasitária classe política e parapolítica de institutos, fundações, gabinetes, empresas públicas, câmaras e afins).
Só a título de exemplo: quanto nos vai custar o cargo absolutamente inútil que o governo ofereceu, ontem, ao homem da bola, Gilberto Madail?
Por este andar, apenas tenderão a permanecer, no país, os dirigentes políticos, sempre imunes a crises e a necessidades de emigração, e os contingentes de idosos, que os elegerão a troco de reformas (a grande maioria, apesar de tudo, muito abaixo daquilo que os seus descontos e as suas vidas sacrificadas reclamavam), mas também como contrapartida por esmolas e, sobretudo, por eventos de charme destinados a espatifar dinheiro público, como é o caso dos milhares de jantares de Natal gratuitos (pagamos nós, os contribuintes), que vão acontecendo em cada câmara ou junta de freguesia. Não seria mais justo e solidário canalizar estes dinheiros para a ajuda efetiva e continuada aos verdadeiramente necessitados?
Ao primeiro-ministro deixo apenas quatro questões despretensiosas:
- o professor provisório de Matemática, Pedro Passos Coelho, que iniciou funções docentes na escola c+s de Vila Pouca de Aguiar, na década de 80, partilha deste conselho do atual primeiro-ministro e estaria disposto, se não fossem os apadrinhamentos partidários e políticos que o cartão laranja lhe proporcionou, a sair da sua zona de conforto e a emigrar para África ou para o Brasil?
- que méritos pessoais, que qualificações académicas, que contributo para o país ou que trabalho esforçado são responsáveis pela circunstância de o futuro de Passos Coelho ser muito diferente daquele que afeta os professores excedentários da sua idade?
- se Passos fosse constrangido a emigrar, como milhares de portugueses, tomaria a iniciativa pessoal de ir para onde, concorrer a quê (o ministério dos Negócios Estrangeiros é apenas uma espécie de agência de viagens para políticos e empresários?...) e, mais importante no seu caso pessoal, iria, concretamente, fazer ou ensinar o quê?
- por que impulso de coragem e de coerência se inibiu Passos Coelho de proferir estas declarações durante a campanha eleitoral, quando, ao invés, usava a máscara da concordância dissimulada com as medidas de Santana Castilho, que não levariam a este resultado?
Ao contrário dos professores, até temo que não haja, no estrangeiro, grande mercado disponível para políticos dissimulados e mentirosos.
A transitoriedade e a efemeridade do desempenho de funções governativas aconselhariam maior comedimento e humildade quando se trata de empurrar outros para fora do país. Convém não esquecer  que a emigração forçada nem sempre afeta os jovens, os professores excedentários, os operários, a mão de obra indiferenciada, os desempregados e as pessoas das classes baixa e média. Acontece que, por vezes, o povo, quando se farta da incompetência, da prepotência e das mentiras dos seus políticos, também dispõe de meios para os empurrar para fora da governação ou, no limite da paciência, para os forçar à sua própria emigração.

Sábado, 17 de Dezembro de 2011

Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Votos de relações sexuais incríveis

As beldades seminuas e as poses sensuais seguirão em anexo.
Bem!... Pensando melhor e tendo em conta o caso precedente, talvez não seja uma boa ideia.
Pelas reações e consequências, teria sido mais sensato formular desejos de abstinência.

Que argumento tão tonto

Foi necessário recorrer à sobretaxa sobre o subsidio de Natal deste ano para que o país desse um sinal claro de que pretende emendar as suas contas públicas e só nessa circunstância é que o triunvirato - o FMI e a União Europeia - aceitaram a receita extraordinária dos fundos de pensões", afirmou Paulo Portas
Começo por declarar que tenho Paulo Portas por uma pessoa incomparavelmente mais inteligente (a sua opção por um cargo governamental e por uma conduta furtiva e quase desvinculada em relação ao pior da governação, resguardando-o e preservando o seu capital eleitoral, tem subjacente uma notável mestria política) do que a sua destrambelhada justificação para a aplicação da sobretaxa sobre o subsídio de Natal permite aferir.
Em primeiro lugar, sublinhe-se a incorporação na retórica governamental de duas escapatórias relativamente àquilo que em democracia deveria ser irrefragável, ou seja, a justificação, racionalmente fundamentada, de opções, decisões e medidas.
Refiro-me ao subterfúgio da "inevitabilidade" e, como no caso vertente de Paulo Portas, à invocação da tirania da troika, sempre que uma medida se revele incongruente com compromissos publicamente juramentados ou careça de justificação consistente, o que, entre outros perigos, não deixa de consubstanciar uma espécie de suspensão da democracia.
Estranhamente, enquanto a falta de densidade política e programática dos nossos políticos projeta os poderes impositivos da troika para um limbo de intocabilidade, muito além do estabelecido no acordo assinado, é um membro da troika que vem, publicamente, remeter para o governo a responsabilidade pelas opções concretas e específicas de cortar nos subsídios da administração pública.
Todavia, o que mais ataranta na justificação de Paulo Portas é o caráter falacioso que advém da admissão de estarmos perante duas medidas contrabalançáveis entre si, em que a aceitação de uma (transferência do fundo de pensões) impunha a implementação da outra (sobretaxa), quando, na prática, ambas concorrem, exatamente, para o mesmo efeito de emendar as contas públicas e gozam da mesma natureza extraordinária, sem qualquer correção estrutural e permanente das contas públicas.
A não ser que Paulo Portas não esteja a ser claro e leal, assumindo para si próprio o que esconde dos portugueses, ou seja, a irreversibilidade da perda dos subsídios, por parte dos funcionários públicos.
Neste caso, os tontos seremos nós!...

Vêm aí grandes sarilhos

"Os sarilhos só agora começaram"

Convicção de Pacheco Pereira (in Quadratura do Círculo, SICN, 15-12-2011), tendo em conta a inépcia dos líderes europeus para se governarem e para enfrentarem os problemas.

Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

Este cavalheiro diz o que sabe, mas não sabe o que diz

“Que não haja a menor dúvida, enquanto eu estiver na política se tiver que optar entre credores e o povo português optarei sempre pela defesa dos interesses do povo português”
Estas novas declarações (quanto mais fala, mais disparata e mais se vai afundando) do deputado e vice-presidente da bancada parlamentar do PS, Pedro Nuno Santos, ainda que aparentem grande valentia e não menor pulsão patrioteira, não passam de uma irresponsável prosápia, por uma razão básica e irrefutável:
- um país na penúria financeira e na absoluta dependência de instituições e credores externos, que tomasse a iniciativa unilateral e caloteira de não pagar as suas dívidas, acabaria a dificultar ainda mais as necessidades imediatas e prementes de financiamento, assim como, e por consequência, a prejudicar dramaticamente os interesses do povo português, começando, desde logo, pela contingência de o Estado se ver impossibilitado de pagar os salários àquelas centenas de milhar de portugueses que o servem.

Há mais quem se esteja a marimbar

Só admitindo a hipótese de a política portuguesa estar tão escassamente fornecida de gente inteligente, sensata, preparada, justa e cumpridora da sua palavra, se tornará possível enquadrar e explicar a ocorrência de grotescas zombarias, como esta e esta, que vão debilitando a seriedade e o crédito da vida política.
As declarações do deputado socialista, Pedro Nuno Santos, são tão facilmente entendíveis e tão clarificadoras das opções socratinas, que chega a ser insultuoso para o entendimento comum alegar-se descontextualização ou deficiente interpretação das mesmas, da mesma forma que não deixarão de se sentir xingados todos aqueles que estão a ser roubados no rendimento do seu trabalho (grupo que vai encolhendo até ficar reduzido a professores, enfermeiros, funcionários públicos indiferenciados e pouco mais), em virtude de haver quem persista em governar com o dinheiro que não lhe pertence (confiscado à classe média e destinado a ser injetado no luxo privado de empresários), mas, sobretudo, em consequência da tralha socratosocialista se ter e se continuar a marimbar para a dívida, de uma forma que, nem o contexto acalorado de um jantar de Natal, porventura bem regado, justifica.
É tão inteligente assumir publicamente que Portugal deve ameaçar não pagar a dívida, apenas como estratégia negocial de força face às instituições financiadoras, como o jogador de póquer segredar a todos a sua estratégia de ir a jogo sempre que as suas cartas forem débeis, convencido que esse bluff, assim revelado, forçará os adversários a desistirem em seu favor.
Mas, há mais quem se vá continuar a marimbar para a dívida e para a situação crítica que o país atravessa, escapando aos sacrifícios que estão a ser exigidos aos mesmos de sempre. Refiro-me aos funcionários dos institutos públicos e, nomeadamente, do INE e do Banco de Portugal.
Depois de este "corajoso" governo se ter encolhido, cedendo aos sacrificados banqueiros e admitindo exceções em termos de progressões na carreira militar, eis que se prepara para legislar no âmbito do estatuto dos institutos públicos, através de um diploma coincidentemente milimétrico com o início do ano em que ocorrerá o roubo dos subsídios de férias, de modo que à pala da "autonomia" se proceda à criação de mais nichos de portugueses de primeira, a quem este governo, corrompido na sua moral, garante exceções absolutamente injustificadas. Já agora, assumam a desvergonha por inteiro e, por exemplo, isentem também esta gente de taxas moderadoras na saúde.
Não existe uma única justificação decente para que os funcionários destes institutos públicos sejam isentados dos sacrifícios, recebendo os seus subsídios de férias e de Natal.
Se o Presidente da República publicar essa merda de diploma, bem pode insistir na retórica da distribuição equitativa dos sacrifícios, que mais ninguém o levará a sério.

Agarrem-me, senão demito-me!

A indignação é tanta que cheguei a impedir colegas de apresentar a demissão
Esta declaração do presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Adalmiro Fonseca, a propósito da revolta dos diretores com as suas avaliações de desempenho, carrega a marca da distração oportunista, do anacronismo e de uma deleitosa ironia.
É lamentável que os senhores diretores não tenham divisado, antes, a subjetividade e a arbitrariedade da avaliação parida pelo socratismo (e legitimada pelo passoscoelhismo), qualquer que seja o sistema, a versão e a aplicação, reagindo tardiamente e apenas quando a FARSA não lhes correu a jeito. Porque, se as classificações fossem generosas, o modelo e os critérios já seriam bestiais.
Talvez, os senhores diretores ainda venham a poder contar com a solidariedade e o apoio dos seus professores, como estes puderam contar com a adesão e a mobilização deles próprios (salvo raras exceções) à contestação que a classe moveu contra a FARSA da avaliação do desempenho.
Estão à espera de quê para se demitirem?...
Vai uma aposta em como nem um se demite?!... É só bluff, ou não tivessem já dado mostras de estarem, que nem lapas, agarrados aos lugares e preocupados apenas com os seus interesses umbiguistas.

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

O professor e a varinha de condão

Mais um excelente artigo do Professor João Ruivo:
Novembro 2011

Reforma à la Crato

Se depois da recauchutagem na ADD (agora RADD), do refrescamento (com sabor a laranja) das Novas Oportunidades, do encerra-que-é-para-manter das direções regionais de educação, da manutenção da Parque Escolar e do silêncio sobre a necessidade de um concurso nacional de professores, que permita corrigir distorções de seis anos de socratismo, seria extraordinário que ainda houvesse alguém a alimentar expetativas de poder vir a surpreender-se com a prometida reforma curricular, que, na linguagem enfezada (escassa ambição e não menor impreparação) do Cratês, leva a designação de Revisão da Estrutura Curricular.
Trata-se de um documento, sem que me sinta motivado a entrar na análise da tremoçada da pequena deslocalização e do detalhe de mais hora para aqui ou para ali, ao melhor estilo governativo de Crato: retoques pontuais que não desencadeiem grandes reações, trivialidades tímidas ao sabor do senso comum, deslocalizações e pequena contabilidade, desde que se poupe em professores e em outros custos associados.
Estamos perante uma reforma descida para a categoria de revisão pontual e que qualquer professor, provido de constatações comuns e minimamente conhecedor da estrutura e organização curricular vigente, empreenderia em trinta minutos de visualização e reflexão, à mesa de uma qualquer cafetaria.
A estes retoques circunstanciais, sem qualquer outra fundamentação que exceda a impressão geral e o opinanço quotidiano, ficam a faltar, além de um mais ousado aprofundamento da autonomia das escolas em termos de gestão curricular, as seguintes dimensões:
- referenciação de estudos, análises comparativas e fundamentações suportivas das mudanças propostas;
- ideias consistentes sobre percursos formativos, porque uma sociedade equilibrada não carece apenas de cientistas e de matemáticos, e uma redefinição robusta e operacionalizável do perfil de aluno do ensino básico e do ensino secundário;
- definição e afetação de tempos, espaços e recursos humanos para um efetivo (e avaliável, ao contrário da vergonha dos TAE's e dos TE's) apoio à preparação escolar dos alunos;
- reestruturação de ciclos e reorganização de anos de escolaridade;
- uma aposta séria e verdadeiramente qualificante e diferenciada no ensino tecnoprofissional.
Basta atentar na comparação entre o que está e o que este ministério da Educação se propõe mudar, para se perceber a extensão do acanhamento, da insegurança e da impreparação desta equipa ministerial:

Fonte: Público
As mexidas são tão picuinhas e tão óbvias que se torna difícil estar discordante relativamente ao essencial daquilo que é proposto.

Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Para quando acabar com esta praga?

Dentre as práticas que retiram moralidade e crédito público à ação governativa, sobressai aquela que reporta às nomeações para gabinetes ministeriais e para outras estruturas do estado, sobretudo, quando as mesmas privilegiam os recrutamentos partidários e são avençadas com base num estatuto remuneratório que se situa muito acima da média dos vencimentos auferidos na função pública, o que, em período de penúria do estado e de roubos à falsa fé (perdoem-me os mais mansos, mas os dicionários não enganam: "apropriação furtiva ou violenta de bens alheios que não lhe pertençam por direito") de vencimentos e subsídios, se mostra, de todo, incompreensível ao entendimento comum dos cidadãos.
Mesmo reconhecendo a este governo o mérito da transparência, na publicação online das nomeações, tal não tem invalidado que as mesmas não estejam a ocorrer a uma cadência assustadora.
A atividade política, o aperfeiçoamento da democracia e da cidadania, por força da moralização da vida pública, assim como a saúde financeira do estado, fortalecer-se-iam se houvesse um compromisso partidário para legislar no sentido de se pôr cobro a esta enxameação partidária dos gabinetes e dos cargos do estado.
Bastaria, para tal:
- recorrer, preferencialmente, aos serviços técnicos do próprio estado;
- recrutar na própria administração pública, aproveitando os recursos humanos em situação de mobilidade ou sem horário atribuído (por exemplo, o recurso a professores, que são técnicos superiormente habilitados e capacitados, mas que o estado desperdiça e troca pela "rapaziada" partidária);
- recrutar gente qualificada em situação de desemprego e inscrita nos centros de emprego;
- promover concursos públicos de acesso, ignorando o fator cartão partidáro.
Porque, no limite, são os dirigentes partidários que nomeiam e muitos dos nomeados que enchem a boca com as teses, quer do excesso de funcionários públicos, quer da necessidade de menos estado, acabando a desmentirem-se a si próprios pela forma como engrossam as fileiras do estado e como se predispõem a viver, desafogadamente, a expensas do mesmo.

Sábado, 10 de Dezembro de 2011

Finalmente, uma medida acertada

In Expresso, 10/12/2011
Meio ano depois da tomada de posse do governo, e após um cortejo dececionante de legitimações do pior do socratismo, de decisões erradas e erráticas, de inações, de impreparações, de hesitações e de inibições acanhadas, eis que o ministério da Educação se propõe tomar uma medida moralizadora e que vai no sentido de uma maior exigência e credibilização no acesso ao ensino superior.
É uma pena que uma equipa ministerial impreparada, que não foi capaz de consumar, de forma determinada, os cortes que se impunham em relação ao passado socrático, continue a atuar ao ralenti, de forma avulsa e meramente reativa.

Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

Escandalosamente caros

Só a patologia social que tomou conta dos portugueses e cuja sintomatologia vem assumindo a forma de desesperança (afinal, a nova alternativa de governação frustrou expetativas e vem-se mostrando quase a mesma bodega da anterior), indiferença e apatia, permite compreender a ausência de uma reação popular massiva à brutalidade dos montantes dos tarifários impostos à circulação nas ex-SCUT, particularmente em regiões do país já de si deprimidas económica e demograficamente.
Esta minha consideração de partida não significa que me oponha, em tese, ao "princípio do utilizador pagador". Todavia, a implementação do mesmo apenas faz sentido num quadro de:
- baixa carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho e sobre as transações de produtos e serviços;
- inexistência de confiscos unilaterais e imprevistos de salários;
- tarifas de circulação com preços razoáveis (não definidas por gestores e por políticos à escala dos seus vencimentos chorudos) e adequadas aos rendimentos dos potenciais utentes, de forma a não dissuadirem a utilização das autoestradas, porque com as quedas de frequência previstas, nem o Estado e as concessionárias encaixam receita (preços mais baixos acbariam a gerar mais receita global), nem os automobilistas preservam a sua maior comodidade, rapidez e segurança.
Com o atual contexto de crise e na ausência dos postulados anteriores, as atuais tarifas, aplicadas nas ex-SCUT, são escandalosamente elevadas e conduzirão, inelutavelmente, a três resultados da maior gravidade:
- por força de se empurrar o trânsito para as estradas nacionais, o país regredirá para os níveis de morbilidade e de mortalidade rodoviária do passado;
- uma descomunal limitação na mobilidade de pessoas e bens terá impactos desastrosos na (não) dinamização das atividades económicas;
- baixíssima expetativa de receita, o que denota alguma irracionalidade e má gestão na fixação do tarifário, pois qualquer empresa competitiva que previsse diminuições de 40% na aquisição dos seus produtos ou serviços, decerto ajustaria os preços à baixa procura, de forma a travar essa quebra, atrair mais utilizadores e, por essa via, garantir mais receita.

P.S.: Se bem percebi uma notícia escutada durante o dia de hoje, parece-me também absolutamente escandaloso que os portugueses estejam, desde há quase um ano, a ser massacrados com tarifários absurdamente elevados e com multas agiotas, ao mesmo tempo que as empresas de rent-a-car continuam, desde o início da implementação dos pagamentos automáticos nas ex-SCUT, a negociar com o Estado a forma de pagamento, sem que tenham adquirido os dispositivos ou pago o que quer que seja, quando me parece óbvio que o problema em causa, sobre como os utentes destas empresas procederão ao pagamento, não é da responsabilidade do Estado, mas da gestão e organuização das próprias empresas.

Os professores são os piores inimigos dos professores

In Diário de Notícias, 09/12/2011
Antes de qualquer outra consideração, tenho que registar o abuso jornalístico de identificar as posições do conselho de escolas com as posições das "escolas", pelo que devo começar por questionar o que e quem verdadeiramente representam os diretores que sentam os rabiosques no conselho de escolas?
E não me venham com a patranha de que representam as escolas e os professores, porque, nese caso, gostaria de ser informado sobre o número de professores que foram ouvidos, quando e de que forma, relativamente a quaisquer das propostas apresentadas pelo conselho de escolas e, especificamente, no que respeita à revisão curricular.
A confirmar-se a veracidade da notícia estampada na edição de hoje do Diário de Notícias, não posso deixar de colocar as seguintes interrogações:
- com base em que estudos, dados, análises e experiências docentes, suportam, estes cavalheiros, as suas propostas de eliminação de algumas disciplinas e de encurtamento dos anos de lecionação de outras?
- estão em condições de garantir que as suas propostas correspondem à perceção e ao posicionamneto maioritário daqueles que os elegeram para o desempenho de funções de direção?
- quem, nas suas escolas de origem, os mandatou para opinarem sobre a revisão curricular?
- que conhecimento ou domínio têm, em concreto, sobre a natureza e a relevância dos currículos das disciplinas que submetem ao juízo das suas convicções subjetivas?
- têm, porventura, quantificados os números e os impactos inerentes aos horários docentes que serão eliminados, aos professores que ficarão sem horário atribuído, aos professores que poderão vir a ser despedidos e àqueles que não obterãonova colocação?
- num período de agravamento das condições de vida de milhares e milhares de professores (cortes nos vencimentos, confisco de subsídios, taxação sobre deslocações diárias em ex-SCUTS e expetativas de desemprego), não terão, estes conselheiros, vergonha na cara e peso na consciência, pela circunstância de estarem a propor, mais ou menos arbitrariamente, redução de disciplinas e de tempos de lecionação, contribuindo para ainda mais situações de desemprego?
Entre outros disparates desta governação, na área da educação, lamento que há muito não se tenha acabado com esta excrescência mole, saída da mais assanhada  intestinária política de Maria de Lurdes Rodrigues e chamada de conselho de escolas.

Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Venho anunciar-vos o regresso do guru (गुरू)

É notável o que o Sócrates "Português" (também para o diferenciar do virtuoso Sócrates "Grego" e do Sócrates Brasileiro, recentemente desaparecido e homem admirável na sua gesta futebolística e na prática de valores de esquerda) tem aprendido, em domínios tão diversificados como a arquitetura de casinhas, a engenharia "independente" (a célebre licenciatura da meia idade, à semelhança de muitas que por aí abundam), a economia ou a filosofia nietzscheana.
Não vou discutir o inacreditável princípio económico das "dívidas eternas" que não se pagam (as dívidas individualmente consideradas têm limites e pagam-se, sendo outra realidade a situação ou condição de endividamento permanente de um país, ainda que nunca com a atual dimensão socrática), nem a reinterpretação à La Palice da impossibilidade de "pagamento integral e imediato da dívida".
Do meu ponto de vista, torna-se mais relevante registar esta espécie de desocultação, sob a forma de um regresso, daquele que, certamente, se considerará a si próprio como o "super-homem" (a preferência pela citação de Nietzsche - "Arrependermo-nos é errar duas vezes"- não terá sido inocente) da política nacional, agora na roupagem sorridente de um guru parisiense que se recusa a olhar para o passado, a assumir os erros e a manifestar arrependimento.
Não sei se Sócrates tem conhecimento ou consciência da circunstância de algumas misérias políticas do século XX se terem inspirado em leituras equívocas de Nietzsche, pela via da afirmação de uma vontade de poder avessa à admissão de arrependimento. Como tal, melhor seria que a sua leitura dos clássicos se tivesse iniciado por Platão, numa aproximação à agenda socrática da douta ignorância e da ação virtuosa.
Todavia e para o facto do Sócrates "Português", após o tempo dedicado à contemplação e à leitura dos clássicos, pensar regressar à política nacional ativa, não me ocorre mais nada ao espírito, seja ou não apropriado, que vá além destas palavras que Nietzsche escreveu na sua obra "Assim falava Zaratustra" (Nietzsche, F. (2010). Assim falava Zaratustra. Oeiras: Editorial Presença.):
"- Não me lisonjeies, replicou Zaratustra ainda sombrio e irritado, ó comediante! Tu és falso - porque vens falar de verdades?
Pavão dos pavões, mar de vaidade, que comédia representaste tu, Mágico sinistro? (...)
- (...) Quis agir como grande homem, e seduzi muita gente; mas era uma mentira acima das minhas forças, ele me quebrou.
Ó Zaratustra, tudo é mentira em mim, mas é bem verdade que estou quebrado, essa é a única verdade que em mim resta".
(...) Assim falava Zaratustra.

Uma lucidez e um protagonismo tardios

Há pessoas, vá lá saber-se porquê, que tendem a evidenciar uma conversão, acomodação e atração relativamente àqueles que, em cada momento, exercem o poder governativo, de tal forma que os momentos de lucidez e de confrontação crítica ocorrem demasiado tardiamente e quase a título póstumo.
Não posso deixar de enquadrar neste tipo de contingências pessoais, estas declarações de Freitas do Amaral, responsabilizando Sócrates pela atual "tragédia" nacional.
E que diferença teriam tido, em termos de atenuação dos sacrifícios e, mesmo, para o nosso futuro coletivo, se estas exatas declarações tivessem sido proferidas em 2009, no momento em que as pessoas, que Freitas do Amaral agora acusa de terem um "desejo excessivo de protagonismo", já responsabilizavam Sócrates pela óbvia e iminente "tragédia".
É admirável o desplante desta gente, sempre que parecem fingir que os portugueses andam todos distraídos e não têm memória.
Estas declarações de Freitas do Amaral, feitas agora, exemplificam a diferença entre combater ou enfrentar a fera em vida e esmurrá-la, apenas, quando a mesma se encontra num estado politicamente cadavérico, tão-só para corresponder ao impulso do protagonismo típico daqueles que desejam associar o seu rosto à fotografia dos visionários e dos corajosos de última hora.

Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

ADD agora é RADD (Recauchutada Avaliação do Desempenho Docente)

Mas, bem poderia ser RAIDD, como sugiro mais adiante.
Quanto à comunicação que o secretário de Estado do Ensino e da Administração Escolar enviou às escolas, procurando apaziguar almas inquietas e esclarecer o que designa de RADD (Regime de Avaliação do Desempenho Docente), nem sequer me vou dar ao trabalho de esboçar qualquer tipo de comentário à mesma, pois, se, por um lado, são conhecidas as minhas posições sobre a forma vergonhosa e cabriola como este governo legitimou e recauchutou esta absurda ADD, por outro, as pantominas inerentes a esta farsa de avaliação, que o PSD e o CDS-PP receberam, em herança, de Sócrates, desencadeiam-me o mesmo tipo de indisposição que a Anabela reporta, neste seu post, ou seja, vómitos.
Para quem, à falta de ideias e de um programa consistente para a Educação, se refugia na formalidade e na artificialidade de siglas, sugiro que esta possa ser melhorada e acrescentada do respetivo slogan, glosando, por adaptação, um conhecido spot publicitário:
Recauchutada Avaliação Indecorosa do Desempenho Docente.
RAIDD - Mata-os bem mortos! (aos professores, na sua autoridade, profissionalidade, paciência, seriedade e decência).

Eis o próximo duplo Nobel da Economia!!!

A crer em notícia recente e na sua veracidade, Portugal, pela primeira vez (caso a memória não falhe) na sua História, arrisca-se seriamente a receber o próximo (eventualmente duplo, tendo em conta a façanha) Prémio Nobel da Economia, façanha inédita por cá! De facto, um ex-político e ex-governante, aparentemente com algumas responsabilidades pela situação brilhante em que o País se encontra, terá proferido, a propósito das dívidas dos países, algo como, e citando, “a ideia de que agora é preciso pagar a dívida é uma ideia de criança”, referindo ainda que “As dívidas gerem-se, foi assim que eu estudei.” De facto, é assim mesmo! O que importa é pedir emprestado; pagar, como diz o povo, bô! Já agora... É à grande e à pelintra! E atenção que esta afirmação (certamente para a eternidade) não é feita de ânimo leve, é bem sustentada e fundamentada em estudos:
“Foi assim que eu estudei!” Mais adiante, como quem mostra saber do que fala, e citando novamente a fonte, mais uma pérola, desta vez citando Nietzsche: “Arrependermo-nos é errar duas vezes.” De facto, citando um ex-primeiro ministro da Nação, ainda está para nascer...
Resumindo: Finalmente, o País ficou a saber de que matéria de são feitos alguns predestinados! Estamos esclarecidos!
E lá para outubro de 2012, lá terá Portugal, finalmente e para deixar muito boa gente roídinha de inveja e com dor entre o braço e o antebraço, o seu (eventualmente duplo) mais que merecido e justo primeiro Prémio Nobel da Economia! O País mal consegue esperar!!!

PS: Aparentemente, ainda há quem tenha ficado sem saber o que dizer a propósito destas afirmações. Não exageremos...

Manuel Salgueiro

Ainda se recordam do fulano das "boas notícias"?

A propósito desta passagem de mais um atestado de estupidez e de irresponsabilidade às decisões e aos atos governativos de Sócrates, nada melhor que recordar isto (até para identificação dos (ir)responsáveis):


Para desmistificar as mentiras socráticas, no âmbito da política energética e dos benefícios da construção de barragens para as populações locais, nada melhor que isto:

Santana Castilho demolidor

Denunciando a irrelevância devotada à Educação, as imoralidades e mais uma operação financeira, com tanto de habilidosa, como de ruinosa, Santana Castilho esfrangalha, na sua crónica de hoje, o pouco que restava do já debilitado crédito da governação e da atuação de Passos Coelho.
Face àquilo que, certeiramente, o cronista rotula de "sociedade abúlica" e tendo em conta a perda de autonomia e de capacidade analítica que vai sequestrando o jornalismo e o comentário nacionais, sublinho o verdadeiro serviço público que a postura lúcida, vertical, independente e corajosa de Santana Castilho tem vindo a prestar ao país (e que o próprio Passos Coelho, ainda recentemente*, reconheceu e valorizou).
Não duvido que as crónicas quinzenais de Santana Castilho funcionem para Passos Coelho (como premonitória e adequadamente já funcionaram, no passado, para Sócrates e respetiva tralha) como autênticos "murros", não no "estômago" (quem incumpre e mente, tem estômago para tudo), mas na inconsciência de um aparente "bom escuteiro" que cedo esqueceu o valor da palavra e da coerência.

In Público, 07/12/2011
* "Habituei-me, sobretudo ao longo destes intensos anos que marcaram a última década, a ler e ouvir muitas das suas críticas e propostas, na forma de entrevistas, artigos e edições dedicadas a esta temática. Não escondo que, à medida que se adensavam as conturbações trazidas pelas sucessivas tentativas de reforma educativa, mais certeiras me foram parecendo as suas observações críticas e maior simpatia fui sentindo pela sua análise serena mas acutilante." 
Pedro Passos Coelho, in Prefácio a Castilho, S. (2011). O ensino passado a limpo. Porto Editora

Que grande vitória moral

Estando convencido que o plantel do FC do Porto é constituído por jogadores de elevado potencial futebolístico, que ainda por cima disputava um dos grupos mais acessíveis da liga dos campeões, causa-me alguma frustração ver os adeptos portistas conformarem-se com um empate, em si mesmo excludente da mais prestigiada e lucrativa competição europeia, mercê da ineficácia ofensiva evidenciada (a mais decisiva competência no futebol), como se de uma vitória moral se tratasse.
O pior deste tipo de vitórias morais é que permitem ir disfarçando o óbvio e ir protelando a resolução dos problemas, como sejam, quer a constatação de estarmos perante uma equipa técnica que não me parece situar-se à altura dos desafios do clube, quer as indefinições quanto a uma equipa base, a dificuldade em encontrar e estabilizar um modelo de jogo, a débil consolidação de rotinas ou a inexistência de uma cultura tática assimilada e consequente.
Se nos restringirmos aos factos, o que temos como irrecusável é o seguinte:
- a eliminação prematura e, em alguns momentos, negligente de duas competições importantes (a taça de Portugal e a liga dos campeões), à mão de adversários de valia individual e coletiva inferior à do FC do Porto;
- uma gestão insegura e quase bipolar da prestação de alguns jogadores, com aparições de aparente recuperação, fulgor e euforia (o caso de Valter é o mais típico, mas há muitos outros), a que se seguem inexplicáveis desaparecimentos temporários e, imagino, estados depressivos associados;
- uma indefinição tática inusitada na história mais recente e mais bem sucedida do FC Porto.
Pela minha parte, continuo convencido que há fracassos de tal previsibilidade e dimensão que se torna preferível um fracassso ainda maior, mas que seja definitivo e resolutivo.
Desejo que a escolha de um grande treinador, que esteja à altura do historial do clube e da valia do plantel, não espere pelo momento em que já não haja nada para ganhar esta época, além do entusiasmo efémero e ilusório de acrescentar um ou outro cromo à caderneta das vitórias morais.

Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

E se batessem com os costados na cadeia?

A propósito desta manchete do Correio da Manhã, e descontado o lixo consubstanciado naquilo que programas como a "casa dos segredos" promovem em participantes e telespetadores, ficarei perplexo se as pretensas "brincadeiras" de pai e filho não forem objeto de uma penalização severa por parte das autoridades judiciais.
Admitindo que o sistema judiciário e o jornalismo constituem duas traves estruturantes da vida social e da organização democrática, não me parece que atos levianos, como os relatados na notícia, que levem à sua descredibilização pública, por força de "brincadeiras" que os ocupam debalde, instrumentalizam e ridicularizam, devessem ficar impunes.
Mesmo desconhecendo se existem enquadramentos legais e penais para estas situações e para o caso de se tratar apenas de histórias inventadas, não tenho dúvidas que a condenação destes personagens a uns valentes dias de cadeia, em cenário de absoluta indiferença mediática, lhes poderia ser muito formativa.

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Da subscrição deste manifesto separam-me, entre outros detalhes, dois parágrafos cruciais

Se é verdade que já me estou nas tintas para lutas militantes de professores, que deram no que deram (também minadas pelo colaboracionismo bipolar dos sindicatos com o socratismo de segunda geração e com os seus atuais e imprevistos continuadores - vislumbra-se essa presença camaleónica num ou noutro signatário do manifesto), também é um dado adquirido que desacreditei, definitivamente, na palavra e nos compromissos eleitorais de partidos políticos, porque, uma vez assentes os rabos no governo, repetem-se as mentiras, os incumprimentos e as incongruências que estão à vista de todos.
Dito isto, reporto-me, nesta minha breve reflexão, a esta espécie de manifesto, soprado pelos ventos de uma certa esquerda académica, o qual, tendo em conta a boa imprensa desta gente, a hegemonia blogosférica ou a representatividade dos professores que os subscritores do mesmo carregam aos ombros, é previsível que venha a ter um retumbante e mobilizador impacto nas escolas, quiçá suscetível de funcionar como centelha para as lutas vindouras que projetem uma nova refundação, quase socrática, da escola pública.
Confesso, mesmo, a minha estranheza pela ausência de nomes como Maria de Lurdes Rodrigues (e outra tralha socialista) por entre os subscritores do manifesto.
Descontada a provocação inicial, e como o título do post consagra, eis os dois parágrafos que me motivam a fugir a sete léguas deste manifesto:

 (...)

Do meu ponto de vista, só quem desconhece a realidade da maioria das escolas públicas ou quem anda muito distraído ou quem frequenta escolas públicas elitistas, pode subscrever a postura de tolerância e de validação, tal como perpassa na mensagem destes dois parágrafos, face ao quotidiano escolar atual, tendencialmente marcado pela facilitação escolar (que transmite aos alunos uma perceção ilusória de preparação e de competências que um grande número não adquiriu), pela certificação da indiferença e da negligenciação do estudo e do empenho, bem como pelo pactuar com a indisciplina e a desautorização quotidiana dos professores. Era isto que, em primeiro lugar, apreciaria ver denunciado e combatido.
Sendo a escola a principal alavanca para a mobilidade social daqueles que vivem mais afastados dos poderes, dos recursos e das oportunidades, e que só uma sólida formação geral, científica e técnica pode proporcionar, falta a este manifesto, quer uma exigência de libertação das escolas e dos professores das amarras da burocracia inútil, do eduquês, do folclore, da escola ocupacional, das palhaçadas da heteroavaliação dos professores ou das chantagens das opções disciplinares de obtenção de notas elevadas quase automáticas e das escapatórias facilitistas dos cursos profissionais e afins, quer uma reivindicação de uma organização da escola pública centrada no ensino exigente, no diagnóstico quotidiano das dificuldades dos alunos e correspondente flexibilização de respostas para a sua superação efetiva, na aposta numa verdadeiramente alternativa e diversificada qualificação profissional, numa orientação vocacional autorizada e eficaz, ou na maior responsabilização de alunos, famílias e comunidades locais.
Qualquer manifesto que defenda investimentos na escola pública (com que a maioria concordará), mas que descure reivindicações e soluções para contrariar, tanto a crescente fragilização da autoridade dos professores, como a dramática perda dos referenciais do esforço e do estudo ou, ainda, a ilusão certificadora que apenas serve para legitimar a indolência e a ignorância que, a prazo e na prática, condena os alunos à imobilidade social, não contará com a minha adesão.

Domingo, 4 de Dezembro de 2011

Fui roubado para isto?

Querem ver que o produto do roubo dos subsídios a funcionários públicos e pensionistas coincide, exatamente, com o excedentário que o primeiro-ministro diz existir para injetar na economia, ou seja, nas empresas, assim transformadas numa espécie de recetadoras do capital retirado a quem trabalha!
Se existe "excedentário", então o que justifica uma medida inconstitucional e brutalmente penalizadora da classe média, como o confisco de salários?
Para confirmar, mais logo, na edição em papel do Público, porque me quer parecer que esta gente anda a brincar com o fogo!

Manchete do Público, 04/12/2011

Sábado, 3 de Dezembro de 2011

Esboço de psicobiografia do filho obediente e da mãe negligente que o ameaça com tau-tau

In Expresso, 03/12/2011
Acredito que a natureza do desempenho político dos atuais líderes europeus, incluindo os recentemente afastados do poder, tornará indispensável, a breve prazo, uma extensa e aprofundada abordagem psicobiográfica dos entrecruzamentos entre as suas vidas e as suas carreiras políticas, como forma de se obter algum enquadramento explicativo para o papel que as subjetividades, as personalidades e as interioridades psíquicas individuais podem estar a desempenhar nos embotamentos, nas impotências, nas indecisões, nas imprevidências, nas inseguranças e, pior, na aceitação normativa e inquestionada de mandos e concomitantes obediências.
Não sendo propósito deste post abalançar-se pela via de tão exigente empreendimento, confino-me a um fugaz e ainda exíguo entremostrar, quer dos traços psicobiográficos para que a parangona da notícia do Expresso, em cima, remete, quer das implicações para o nosso futuro coletivo que advirão dos mesmos.
Mercê de processos que as dinâmicas de grupo e a psicologia social têm estudado abundantemente, como a mente de grupo (group think) e a polarização, torna-se expectável que a inteligência coletiva, especificamente a que tem emergido nas instituições europeias, fique muito aquém da média das inteligências individuais, o que explica uma parte da paralisia atual.
Se a esta contingência acrescentarmos o enfoque da psicologia cultural na propensão imperial que atravessa a mentalidade alemã e no flagrante contraste entre o protestantismo (o castigo, a expiação e a afirmação pessoal) e o catolicismo (as virtudes da submissão, da obediência e da aceitação do empobrecimento - as bem-aventuranças consumam-se no reino dos céus), então, temos reunidas as ferramentas teóricas propiciadoras da compreensão, tanto da emergência de uma chancelaria alemã autoritária e castigadora, ainda que, no passado recente, negligenciadora para proveito próprio, como de um governo português obediente.
Como se isto não bastasse, tivemos a negligência, também alemã, no exercício da autoridade tendente a impor a disciplina orçamental (ameaçou-se com penalizações no passado, mas nunca se concretizaram verdadeiramente, porque o despesismo dos países do sul servia os interesses da banca e da indústria alemãs), bem como nas mensagens contraditórias que foram sendo dadas a países como Portugal e a Grécia, no sentido de adquirirem os serviços, produtos e empréstimos germânicos, fomentando ou tolerando, desta forma, os seus endividamentos.
O problema de tudo isto é que, à semelhança do que acontece com as relações interpessoais e familiares, pode redundar daqui, para futuro, uma dinâmica patológica de abuso continuado por parte da mãe negligente, que se aproveita da submissão, da insegurança e da perda de assertividade e autoestima do filho obediente.
A posição de quem se predispõe a levar açoites germânicos, vergado, camisola repuxada e calças descidas, parecendo exibir a prontidão das nádegas, não é recomendável para ninguém, quanto mais para um governo ou um estado soberano.

Jardim de infância em campo de milho

Não me custa imaginar que o título deste post bem podia constituir um cenário suscetível de apropriação pela inspiração impressionista de Van Gogh. Daria, em fortes tonalidades de amarelo, um belo quadro!...
Todavia, o quadro é de um impensável realismo e só a estupidez dos homens é que adquire, no mesmo, contornos de surrealidade.
Trata-se de uma infraestrutura educativa construída para benefício de uma freguesia, mas que se encontra impedida de funcionar, apesar de concluída, devido à inexistência de acessos, encontrando-se sitiada pelos campos agrícolas que a circundam.
Obviamente, o burlesco da situação é a expressão da pequenez das guerras de manjerona e dos arrufos das desprezíveis e cobiçosas politiquices locais, servindo de caricatura a uma certa mentalidade nacional mesquinha e rancorosa que perdura.
A talho de foice, restam dois pormenores que me intrigam, sobremaneira:
- é possível que uma Câmara Municipal licencie uma obra sem que estejam assegurados os acessos públicos à mesma?
- sendo indiscutível que a construção de uma infraestrutura desta natureza mobiliza pessoas, maquinaria e materiais, como e por onde ocorreu a sua deslocação até à obra?

Jobs for the elderly

Mais um português que vai sentir o aperto dramático da crise e dos cortes. Só espero que nenhum curto-circuito lhe esturrique os... pêlos púbicos!
In Expresso, 03/12/2011

Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Ainda há quem acredite no Pai Natal?

A crer na notícia e citando, "A Escola Secundária Alcaides de Faria, em Barcelos, mete água, apesar de ter reaberto após obras de requalificação orçadas em 8,6 milhões de euros". Ou seja, após quase 9 milhões de euros enterrados (vulgo, esturrados) certamente com as melhores das intenções por esse colosso da construção que dá pelo nome de Parque Escolar (PE), eis o resultado, também ele colossal: Como a coisa
(escola) provavelmente até nem metia água, há que meter água e, vai daí, obras à grande e à PE!
Como a coisa tem mesmo que ser "à séria", e novamente crendo na fonte, parece que o prato principal vem ainda acompanhado por paredes com azulejos a descascarem e infiltrações mesmo por todo o lado, ao ponto de alguém com responsabilidades acrescidas na dita Escola, ter considerado "estranha" a situação, tendo em conta a maquia derretida.
Estranho? E porquê estranho? A crer na seriedade e transparência da coisa, seria de esperar mesmo outro desfecho se não este?
PS: Parece que a coisa já estará a ser remendada e, ainda citando a fonte, de acordo com o dito responsável já referido, algumas "situações ficaram resolvidas", mas outras ainda não... Santa ingenuidade! Ainda há quem acredite no Pai Natal?!

Manuel Salgueiro

Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011

Sustentar a filha de outros

A corrupção fê-la, na promiscuidade dos antros de políticos e de gestores das administrações públicas, para caber, agora, à classe média e aos funcionários públicos o sustento da dita.

Manchete do Jornal de Notícias, 01/12/2011

A impreparação dá nisto

Face à performance desgraçada do ministro Álvaro Santos Pereira (o seu secretário de Estado, embora mais convicto na pose, também esteve desastrado), hesito entre sentir comiseração pelo desconforto da sua expressão final de incapacidade ou lamentar a existência de um governo constituído, salvo quatro ou cinco exceções, por gente tão aflitivamente impreparada.
Tirem os "Santos Pereiras" (e já, agora, os "Cratos") deste equivocado filme governamental, porque isto é "sova" e vexame público a mais.
O que, no meio desta vergonhosa azelhada, me deixa ainda mais perplexo é a circunstância de não ter memória de ter assistido a este debate nas televisões. Será que a missão das televisões é informar ou é proteger a imagem e as impreparações deste (ou de qualquer outro) governo?