Um murro de Santana Castilho na consciência de Passos Coelho e da elite política "laranja" (18-01-2012): As "natas"

Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

UM ESCRITOR VISIONÁRIO OU UM PAÍS ESTACIONÁRIO?

" Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (...) Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (...) Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, - como da roda duma lotaria. A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)"

Guerra Junqueiro (1896). Pátria

Publicado em NetBila

Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

Vasco Graça Moura: "(...) o Governo socialista passou quatro anos a desgovernar e a mentir aos portugueses"

DESGOVERNAR E MENTIR

Vasco Graça Moura
Escritor

O País vai gloriosamente a pique por obra e graça deste Governo. A crise que o mundo atravessa é muito posterior aos desastres sucessivos da governação socialista em Portugal. Antes dessa crise, já Portugal estava a meter água por todos os lados. E o que se passa hoje no mundo não pode ser um álibi para o Governo português, por muito que ele tente convencer-nos do contrário. Dos outros países da União Europeia, pode dizer-se que têm todos consideráveis dificuldades e com certeza problemas sérios e da mais variada ordem, mas não pode dizer-se de nenhum que ele se encontre num processo de naufrágio semelhante ao caso português. Temos a pior governação da Europa. A mais incompetente. A mais fracassada. A mais mentirosa. Essa governação preparou a catástrofe em todos os sectores da vida nacional. De facto, essa catástrofe foi provocada pela irresponsabilidade continuada e pela teimosia obstinada e aldrabona do Governo socialista em termos que não têm paralelo em qualquer dos outros países afectados pela crise. Portugal não está apenas a perder a solvabilidade, a produtividade e a competitividade. O Governo socialista lançou Portugal num exercício de auto-encolhimento e de descrédito. O País está a perder a esperança, a confiança e a auto-estima. Se continuar assim, acabará por lhe minguar a capacidade de sobrevivência. E com o Governo socialista, sem dúvida continuará a resvalar nesse plano inclinado e fatal numa imparável aceleração. O mesmo Governo, exactamente o mesmo Governo socialista, que há poucas semanas garantia aos portugueses um estado de coisas pouco menos do que paradisíaco, vem agora servir-lhe um desastre embrulhado em retórica barata feita só de improvisos pontuais e promessas de despesismo. O mesmo Governo, exactamente o mesmo Governo socialista, diz, desdiz-se, contradiz-se e reincide, alavancando as suas partes gagas numa campanha obscena de propaganda, de desinformação e de má-fé. Leva o eleitoralismo ao ponto culminante do descaramento sistemático. Vai-se assegurando o controlo de todos os circuitos e chamando a si o comando directo ou indirecto de todos os mecanismos de decisão. E espera que o contribuinte suporte docilmente os custos de tudo isso e muito mais. Incapaz de encarar de frente, e com seriedade e transparência mínimas, qualquer problema de fundo que lhe seja suscitado, o Governo socialista lança mão de expedientes ínvios e de espertezas saloias para desviar a atenção das situações mais graves e, quando interpelado, não dá qualquer espécie de resposta digna desse nome. Os tristes contorcionismos e evasivas do primeiro-ministro e dos seus ministros, tanto na Assembleia da República como fora dela, dão a exacta medida disso. Já ninguém os leva a sério. Este cândido cenário é confortado com o anúncio de que o PIB afinal se vai por água abaixo e o défice afinal vai chegar aos 3,9%. Só por si, e para quem sabe do que a casa gasta, isto prenuncia que os 4% vão ser rápida e largamente ultrapassados, talvez até com a "justificação" daqueles 6,83% falsos que o Governo volta e meia se lembra de invocar nas suas agressões ao PSD. A isso acresce a confissão, agora despudorada, da chegada da recessão, do aumento inacreditável da taxa de desemprego esperada, dos tempos afinal bastantemente turvos e nada radiosos que se avizinham, como se o primeiro-ministro pudesse invocar um desconhecimento virginal de todos os perigos e de todos os erros para que, ao longo dos anos, lhe foi sucessivamente chamada a atenção, até por gente altamente qualificada do seu próprio partido. A tragicomédia grotesca do Orçamento de Estado para 2009, com as pantominas inenarráveis de que o Governo socialista rodeou a sua apresentação ao Parlamento e até perante o Presidente da República, teve agora um novo episódio com o Orçamento Suplementar, aliás Rectificativo, aliás provisório, aliás não se sabe bem o quê até se ver o mais que aí vem como cambalhota bombástica oficial. Nestas andanças torpes, o País já não sabe a quantas anda. Só sabe que o Governo socialista passou quatro anos a desgovernar e a mentir aos portugueses.

Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

PRATO ALDRABADO SÓ SE COME UMA VEZ!...

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Fonte: Público
Recorte: La Salette Loureiro
A pouco e pouco, vai caindo a máscara da dissimulação da verdadeira realidade da economia e do país. Começou o lento acordar dos portugueses e, nos próximos tempos, vamos assistir à erosão das ilusões, das reformas atabalhoadas/inconsequentes e da propaganda que um Governo prepotente, mas medíocre, nos andou a impingir, sem escrúpulos, durante uma legislatura. As análises e as previsões das instituições nacionais e internacionais sobre a economia portuguesa não deixam dúvidas sobre o estado comatoso do país.
Só a título de exemplo, porque é que o jornalismo independente não investiga o número dos portugueses que frequentam acções de formação atrás de acções, como expediente para camuflar os números reais do desemprego? Seria curioso, ainda que dramático, calcular depois a real taxa de desemprego.
À infalibilidade do Papa sucedeu a infalibilidade de Sócrates. O problema é que a mentira tem perna curta!

CULTURA À MESA: o cabrito da Repentina

O “REPENTINA”

COMO CHEGAR A ESTE PRODÍGIO GASTRONÓMICO JUNTO DO BERÇO DE MIGUEL TORGA

O REPENTINA é, hoje em dia, um Santuário gastronómico único em Portugal: E o cabrito , o arroz e as batatas assados no forno são ali um autêntico banquete dos deuses.
Quem não sabe ainda que na simples e romântica Poiares da Régua se come o mais delicioso e original cabrito assado de Portugal ?
Você que conhece o Camelo da Apúlia ou o Leiriense Tromba Rija, pensa que já não há mais e melhor?
Desengane-se e siga este destino reservado aos que gostam de desvendar os segredos da natureza, nos sítios onde ela é mais modesta, mais humana, mais rica e mais profunda.
Pois foi esse tesouro escondido que, num belo dia de sol, tive a felicidade, e até o orgulho, de descobrir.
Depois de provar este repasto de sonho, a fumegar secretos incensos numa dança dionisíaca com um tinto caseiro de paladar anónimo, mas digno e universal, nado e criado nos terraços xistosos do Douro, você será mais um fiel peregrino, a sentir o irresistível apelo de revisitar o Santuário gastronómico “ REPENTINA” que se ergueu, na sua humilde majestade, mesmo junto da terra onde esse exímio e universal contador de histórias nasceu.
Então venha daí, você que é de Viana, Porto, Braga ou Chaves. Tire o carro da garagem, neste domingo de sol, e chegue, num instante, a Vila Pouca de Aguiar, onde, já se insinuam, no ar límpido da serra, saborosas inalações a cabrito.
Aí chegado, afeiçoe a sua marcha a toda a beleza das serras, dos montes e dos vales e aproveite os inesperados miradouros da estrada, para, das alturas, se regalar, olhando, em atordoado êxtase, a envolvente e vigorosa montanha que deslumbra e desperta o mais sonolento viajante.
O enorme viaduto que. à beira de Vila Pouca, o transporta, num pulo, desde a Serra do Alvão até à da Padrela, oferece-lhe o privilégio único de uma vista fantástica e arrebatadora sobre o majestoso vale de Aguiar, que você pode ir desfrutando enquanto não atinge os píncaros da serra, onde, em dias de Invero, o vento sopra e os lobos uivam. Mais à frente, a linda princesa do Corgo ( essa Cidade com nome de Vila - Real), é agora o seu destino.
E com a real cidade à vista, abandone a Auto-estrada, à segunda possibilidade. Vire agora para a estrada que o leva à Régua – por - Poiares, e percorra, enquanto regala a vista, à esquerda e à direita, as sinuosas curvas que o levarão a Poiares, enquanto vai percebendo, pelas paredes de xisto e pelos vinhedos rasteiros e regulares, que o Douro por ali deve estar no seu leito fundo e milenar.
Aí está você mesmo à entrada de Poiares. E já à direita, eis o restaurante Repentina, tão estranhamente simples e tão simplesmente estranho na sua humilde beleza. E as inalações que andam no ar são já o prenúncio do tenro e gostoso cabrito que acaba de sair do forno. Entre, que a Senhora “ Repentina” quer dar - lhe as boas vindas com sorriso amigo e familiar, como se recebesse primos ou primas, no conforto da sua casa. Mas antes, não esqueça de sentir o enleio da atmosfera limpa e silenciosa, amplamente arborizada, onde só ouve, de quando em vez, o surdo ondular do melro ou o doce chilrear do pardal. Deixe aí mesmo o seu carro a descansar, à sombra fresca do ramalhal.
Lá dentro, na grande sala rectangular, sente-se bem junto a uma das janelas da luminosa marquise . Assim poderá juntar a uma delícia – a do saboroso cabrito – outra delícia ainda maior: a visão soberba do soberbo verde do Marão que lhe entra pela janela como se reclamasse a alma daquele (cabrito) que as suas ervas criaram nas fraldas relvadas dos seus ermos.
Mas você que vive em Lisboa, Leiria , Coimbra ou Viseu, não fique desiludido. O deleitoso repasto do Repentina está também ao seu alcance.
O caminho?
É simples:
A1 até Coimbra. Um salto de Coimbra até Viseu, enquanto espreita o Mondego e se inebria no aroma dionisíaco das encostas do Dão. Ladeando Castro de Aire, atravesse o planalto castrense que o leva até Lamego. Desça vertiginosamente do planalto até à Régua, e olhe o Douro, tão barrento , tão largo, tão cheio de cruzeiros romanescos! Está já nos socalcos do Peso da Régua. Não saia da auto-estrada, deixe-se guindar por ela ao cerro coberto de vinhas . Saia em Vila Real , na 1ª saída. O resto já você conhece.
Por isso, instantes depois, estacionou o seu carro à sombra fresca do ramalhal; por isso, escolheu ficar ali bem junto à janela da marquise do restaurante. E, enquanto espera o inefável cabrito, vai venerando a imponente paisagem duriense, vista desde a confortável mesa de um restaurante, cujo nome jamais olvidará, por REPENTINAMENTE lhe vir à memória “aquele espantoso e único cheiro a cabrito”.

Texto do Colega Francisco da Cunha Ribeiro

POESIA INSPIRADORA EM TEMPOS DE CONTESTAÇÃO

"Congresso Internacional do Medo"
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.

Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das
igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos
democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da
morte,

depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e
medrosas.

Carlos Drummond de Andrade
.
Poema Pouco Original do Medo
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O'Neill
.

Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida.
Estes são os imprescindíveis.

Bertold Brecht
.
Elogio da Dialéctica
A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração; isto é apenas o meu começo
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos
Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã

Bertold Brecht

Selecção: La Salette Loureiro