A lógica de uma demissão, segundo Cunha Ribeiro.Um grande texto para ler e reflectir.Nota pessoal:Convém que façamos um esforço para situar, historicamente, os acontecimentos relatados no texto, uma vez que os pedidos de demissão de Jorge Coelho e de António Vitorino ocorreram no contexto de uma democracia "indecente". Ao invés, Sócrates recandidata-se a secretário-geral do PS e disponibiliza-se para um novo mandato como primeiro-ministro, investido da convicção de tornar "decente" a democracia portuguesa. Se a justiça era uma das prioridades deste Governo e não deu resultado, talvez a "decência" advenha, no hipotético segundo mandato, da nacionalização da comunicação social. Pelos ataques recentes, só pode!...
Desde episódios conhecidos do trajecto profissional e académico de Sócrates, até à relação difícil que mantém com a verdade ou à forma como permitiu que membros do seu Governo achincalhassem e afrontassem classes profissionais dignas, a pugna pela "decência" da democracia portuguesa é, em Sócrates, uma séria candidata a piada do ano.
A BATATA, O COELHO E A LÓGICA

A popularíssima “lógica da batata”, que também se poderia designar de “bio-lógica”, sugeriu-me, paralelisticamente, uma “ operação mental” um pouco mais animista, ou “zoo-lógica” a que daria o nome de “Lógica do Coelho”.
Encarna esta última ( lógica) uma atitude política exemplar com origens funestas na “Tragédia de Entre-Os-Rios”. Era, por essa altura, Ministro das Obras Públicas o “recém-privatizado” Jorge Coelho que, num assomo de moralidade, pediu a sua demissão, como se tivesse algum “rabo de palha” ligado às razões daquela tragédia. A verdade é que J. Coelho nem deu muitas voltas à cabeça para tomar a dita atitude. Uma atitude cuja lógica se poderia enunciar assim: “Se alguém do governo, ou de um órgão publicamente relevante, sente que o seu cargo está sob o escrutínio da opinião pública relativamente a actos, omissões ou suspeições, mesmo infundadas, deve, de imediato, pedir a demissão”. Percebendo isso, e revelando um desapego do poder digno de nota, Jorge Coelho (unanimemente visto como um bom Ministro das Obras Públicas!) achou que havia responsabilidades do Ministério que tutelava em relação ao sucedido e, sem pestanejar, pediu a sua demissão.
Sublinhe-se que, na altura, toda a gente considerou o gesto de Coelho digno dos maiores encómios, e uma atitude moralmente inatacável. Devo dizer que, estando Jorge Coelho, como reconhecidamente estava, a desempenhar o seu cargo de forma tão positiva ( destacando-se pelo seu dinamismo e pelo zelo com que acompanhava as obras em curso), estranhei a sua atitude, que me pareceu excessiva e inoportuna, por a julgar negativa nos seus resultados práticos. Felizmente, os efeitos nefastos de tal comportamento foram atenuados devido às excelentes qualidades do seu sucessor no cargo (hoje na prateleira, por razões óbvias) – o Engenheiro João Cravinho.
A opinião publicada de então apenas registou para a posteridade a atitude eticamente exemplar de Jorge Coelho. Poucos terão reparado que, com essa atitude, respeitável, mas inoportuna, se acabava de desperdiçar um excelente Ministro das Obras Públicas ( basta ver como a Mota Engil o aproveitou, anos depois, para se perceber como a demissão de Jorge Coelho poderá ter sido prejudicial para o governo e, sobretudo, para o país).
Outro exemplo, não menos elucidativo, foi a demissão de António Vitorino, apenas porque literalmente se especulava sobre uma alegada fuga ao fisco na compra de um pequeno terreno no Alentejo. António Vitorino é, reconhecidamente, um político prestigiado no seio do P.S. Em minha opinião foi mais uma demissão sem razões substantivas para ocorrer, e, também ela, inoportuna e prejudicial.
Mas agora a pergunta impõe-se: Porque é que José Sócrates, com muito mais razões para se demitir, não tem a mesma atitude que tiveram os seus dois camaradas de partido? Será porque o Princípio “in dubio pro reu”que andam a tentar sedimentar nos ouvidos da opinião pública, se tem de aplicar também na actividade política? Sendo juridicamente incontestável que, até prova em contrário, não se deve condenar ninguém, também o deve ser politicamente? Se, por “feliz” ventura, José Sócrates se demitisse, alguém seria condenado? Com certeza que o próprio não o seria , por inexistir qualquer decisão judicial condenatória; quanto aos portugueses ( sobretudo os que não vivem da “gamela” do regime) também o não seriam, porque em vez de se sentirem condenados, sentir-se-iam, isso sim, extraordinariamente aliviados.
No caso de Jorge Coelho de que é que se suspeitava? Que lá de cima, S. Pedro lhe delegara os inefáveis poderes de fazer engrossar o rio Douro e, em consequência, fazer cair a ponte? Que seria ele o agente oculto por detrás do aproveitamento das areias que escavaram a fragilidade dos alicerces que a sustentavam? Que podia ser ele o responsável pelo estado decadente da dita?
No que diz respeito a José Sócrates, havia, já lá vão quatro anos, uma investigação que o apontava como suspeito no caso Freeport; essa investigação congelou, sem se saber porquê, no Ministério Público de Alcochete; substituindo-se à incrível inércia dos procuradores, vieram os jornalistas “obrigar” a investigação a retomar os seus longos trâmites processuais; tarde e a más horas, vieram a público novas referências a José Sócrates, seja indirectamente através de familiares , seja directamente pela polícia inglesa; paira no ar a inacreditável rapidez do licenciamento do Freeport.
Mas será preciso mais? Será que alguém acredita que Sócrates não sabe nada de nada? Nem sequer é chamado para dizer o que possa saber? Não terá o Primeiro Ministro mesmo nada para dizer? Para revelar?
Sócrates, sim, devia pedir a demissão. Não hoje, nem amanhã… mas ontem!
E bem podiam fazer o mesmo alguns ministros do seu governo.
E já nem vou falar de Vítor Constâncio! Vou apenas invocar, ao de leve, Dias Loureiro que, por razões de memória ( falta dela, como o próprio fez questão de lembrar), talvez mereça a inefável compreensão do Sr. Presidente da República ( pois o seu admirável “conselheiro” Loureiro é muito capaz de estar a sofrer de Alzheimer).
CUNHA RIBEIRO