
Engana-se quem considera que o PSD deu um "tiro no pé" no dossiê da avaliação dos professores, porque, em bom rigor, aquilo que fez foi disparar à queima-roupa sobre a própria cara de "verdade" e "compromisso" com que se apresentou às eleições legislativas.
Para justificar a violação da promessa eleitoral consubstanciada no “suspenderemos”, trocando-a por uma “recomendação” ao PS, já se avançaram os argumentos mais díspares:
1) esta posição vai além da suspensão, pois substituir é um passo mais avançado e definitivo;
2) desta forma, resolvem-se os problemas da educação, apazigua-se o clima nas escolas e corresponde-se à vontade de professores, sindicatos e outras estruturas representativas dos professores;
3) o clima favorável à suspensão, que permitiu a muitos professores votar no PSD, agora já “não interessa a ninguém” (deputado Emídio Guerreiro, no programa “Parlamento” - RTP2, 21/11/2009).
4) a incompreensão, com que a quebra do compromisso foi recebida nas salas de professores e pelos movimentos independentes, deve-se a problemas de comunicação e à “ignorância” ou “distorção” que têm caracterizado as reacções negativas à mesma;
5) assim, esvaziou-se qualquer possibilidade de protagonismo do CDS-PP, evitando-se que Paulo Portas surgisse perante a opinião pública como alguém que faz o trabalho de casa (ao contrário do PSD) e contribui para a resolução dos problemas;
6) com este inesperado colaboracionismo retira-se qualquer pretexto para o PS invocar o bloqueio governativo a partir de coligações negativas no Parlamento, inviabilizando-se eventuais manobras do PS tendentes a precipitar eleições antecipadas.
Eis o que falha nesta argumentação e que nos permite qualificar a estratégia do PSD como de alto risco e, no essencial, absurda:Resposta a 1 – de facto impediu-se a suspensão sem que se tenha a garantia da substituição, trocando-se o certo pelo incerto. Depois, não é o mesmo negociar com o ME a partir do nada ou fazê-lo sob a pressão de manobras ardilosas para manter a base do que vigora. Além de que a suspensão do modelo abria o caminho sério e justo da suspensão dos efeitos da avaliação, permitindo que ninguém saísse prejudicado ou beneficiado relativamente aos colegas.
Resposta a 2 – pelo contrário, adiou-se a resolução dos problemas sem garantias, enquanto nas escolas reina a indignação face ao PSD, a ausência de alívio e a apreensão sobre o que poderá vir a acontecer. Da mesma forma, a maioria dos professores é a favor da suspensão imediata, os movimentos independentes sentiram-se traídos pelo PSD e a própria Fenprof considerou a posição do PSD como vaga e insuficiente. Salva-se a FNE, claro.
Resposta a 3 – ninguém compreende mudanças inesperadas na avaliação dos climas, sobretudo quando se faz um aproveitamento dos mesmos em momentos eleitorais. É o argumento mais cínico de todos.
Resposta a 4 – é lamentável que o PSD recupere a estratégia da equipa de Maria de Lurdes Rodrigues, de Sócrates e de Correia de Campos (ex-ministro da Saúde), tratando os professores e os portugueses em geral como ignorantes ou idiotas, que sem um esforço adicional de explicação não chegam à compreensão do que está em causa.
Resposta a 5 – o problema é que em termos da leitura da opinião pública, o PSD evitou o protagonismo do CDS-PP à custa de uma gestão desastrada e desrespeitosa dos seus próprios compromissos, o que é o pior dos protagonismos para um partido. Além disto, fica sempre a ideia do sacrifício dos princípios à táctica partidária e isso não enobrece a política.
Resposta a 6 – isto nem chega, nesta fase, a ser argumento, mas antes mera retórica lírica, pois existe um largo consenso na sociedade quanto à necessidade de suspender o modelo de avaliação e acabar com a divisão na carreira (questões sufragadas eleitoralmente), pelo que estava fora de questão que o PS esticasse a corda neste momento, além do mais quando as sondagens e os casos mais recentes não são garantia de que obtivesse maioria absoluta.
Na prática, eis o que aconteceu, está a ocorrer e poderá vir a passar-se:- o PSD comprometeu-se, preto no branco e de forma incondicional, a suspender o processo de avaliação e a pôr fim à divisão na carreira, pelo que é factual que traiu o compromisso público assumido com os professores e com os portugueses em geral, pois na primeira oportunidade (que até já era a segunda) que teve para efectivamente o fazer, esquivou-se a tal. O dia 20 de Novembro poderia ter sido um grande dia para a maioria dos professores e ter ficado marcado como a data que assinalava, quer a cessação de um modelo incompetente, nada sério e injusto, quer o fim da divisão arbitrária na carreira. Mas, por exclusiva responsabilidade do PSD não o foi.
- a mensagem que passou e ficará gravada na opinião pública e, particularmente entre os professores, é a de uma falta à verdade e de uma colagem ao PS (ouvem-se repetidamente os remoques “roeram a corda” e “é tudo farinha do mesmo saco”), confiando numa liderança partidária e de governo que o PSD ataca virulentamente (e justamente) de segunda a quinta-feira, mas que à sexta-feira se torna confiável para ter uma nova “oportunidade”, mau grado a obstinação de Sócrates e do ME em não suspender, nem sequer substituir. Ora, em política o que parece, é.
Além disto, são os próprios comentadores políticos a considerar que quem saiu favorecido neste processo foi o PS (obrigado, PSD).
E, depois, não restam dúvidas que este PSD passou, com a decisão de violar um compromisso eleitoral, um atestado de óbito à sua credibilidade e à sua “política de verdade”.
- com esta sua atitude, o PSD preservou intocável o discurso demagógico e mistificador do PS (recusado por mais de 100 mil professores e a quem o mesmo irrita particularmente), conferindo um novo ânimo ao PS para continuar a repetir que o ciclo chegou, normalmente, ao fim, que foi positivo, que se fizeram muitas aprendizagens e que é necessário aproveitar o trabalho que foi empreendido nas escolas.
No próprio dia 20 de Novembro, já depois de aprovada a recomendação do PSD, a ministra Isabel Alçada não admitia a substituição do modelo, falando antes de afinação e de melhoria dos processos (discurso não muito diferente do que ouvíamos a Maria de Lurdes Rodrigues).
Francisco Assis (PS) não assume nenhum compromisso com o PSD, preferindo dizer que vão “ponderar” as recomendações, pelo que não há garantia do seu cumprimento.
Agora, atente-se nas declarações de Paula Barros (deputada substituta que o distrito de Vila Real não elegeu directamente), no programa “Parlamento” (referenciado em cima) em nome do PS:
“Vamos introduzir as alterações necessárias no modelo que sejam sugeridas pela Comissão Paritária (?)”; “Aquilo que está a acontecer é aquilo que a Sra. Ministra [Maria de Lurdes Rodrigues] sempre previu.”. Ainda de acordo com a deputada, trata-se de melhorar o actual modelo e o prazo de 30 dias é meramente “indicativo”.
Aposto em como Sócrates não vai deixar cair o modelo e vai apenas introduzir alterações ao mesmo, refugiando-se em jogos evasivos de palavras.
- o PSD com a recusa da suspensão mais não fez do que repor, quase intactas, as condições que existiam em Abril de 2008, quando o processo negocial ficou entregue, em exclusivo, aos sindicatos e ao ME, o qual terminou no célebre memorando de entendimento, com as cúpulas sindicais, ao arrepio da vontade dos professores, a reduzirem as fraquezas substantivas e irreparáveis do modelo a uma questão de calendário de implementação.
O PSD chumba a solução, aprova uma recomendação que é uma incerteza e, sobretudo, hipoteca a sua autonomia de actuação, colocando-se à mercê daquilo que o PS possa vir ou não a fazer. O PSD comprometeu-se em ser uma parte importante da solução no Parlamento e acabou, com a sua postura, por evoluir para uma parte incómoda do problema.
Por mais que procure compreender os argumentos dos obreiros desta estratégia, não consigo vislumbrar aqui nada de positivo para o PSD (o que leva um partido que tinha tudo para jogar ao ataque a meter um autogolo e a ter que passar a actuar à defesa?).
Se isto é inteligência política, então, doravante, eu bem me poderia considerar o Napoleão Bonaparte, mesmo que, a fazer fé na minha actual lucidez, nada me sugira que tenha chegado à fase da “mania das grandezas”.